Por Chiara Lombardi — O espelho do nosso tempo na passarela: a morte de Valentino, aos 93 anos, em Roma, não encerra apenas uma carreira — revela também um roteiro oculto que une moda e cinema numa relação de cumplicidade simbólica. Ao longo de décadas, a maison do estilista foi cenário de encontros entre imagem pública e memória cultural, onde o traje vira narrativa e a cor torna-se assinatura. É impossível falar de tapetes vermelhos sem lembrar do mítico vermelho-Valentino, um tom que muitas atrizes transformaram em ícone pessoal.
O amor entre Valentino e o cinema foi evidente em pequenos e grandes gestos: há até um cameo do estilista em O Diabo Veste Prada, em que ele interage com Miranda Priestly (Meryl Streep), lembrando que a alta-costura sempre dialogou com a indústria das imagens. Esse vínculo começou, entre outros momentos decisivos, com um verdadeiro colpo di fulmine entre o estilista e Sophia Loren. A beleza verace da diva italiana encontrou na sobriedade imperial da maison um traje de confiança — e a atriz usou Valentino em ocasiões que entraram para a memória, como o vestido preto de paetês bordados que usou em 25 de março de 1991 ao receber o Oscar Honorário.
O elenco das musas que confiaram sua imagem ao couturier é longo e variado: Elizabeth Taylor, Gwyneth Paltrow, Anne Hathaway e jovens estrelas como Zendaya, que brilhou em um vestido de riscas ópticas preto e branco, um exemplo de como a maison atravessou gerações. Julia Roberts permaneceu na retina coletiva com um vestido justo preto, cortado por uma linha branca e com cauda de tule, usado quando recebeu o Oscar por Erin Brockovich. Cate Blanchett subiu ao palco com um vestido monombro amarelo-pastel com detalhes joia e uma longa cauda vaporosa ao aceitar o Oscar por The Aviator, mostrando como o traje funciona como dispositivo cerimonial.
Jennifer Lopez emocionou ao vestir um monombro branco, bordado com detalhes joia, homenagem discreta a Jackie Onassis — outra cliente do maestro da costura, que nos anos 60 usou um modelo semelhante em verde. No extremo do espectro cromático, o vermelho-Valentino incendiou tapetes: Scarlett Johansson, no Golden Globes de 2006, apareceu como uma sereia escarlate; Monica Bellucci encantou na première de La Traviata em Valência, em 2017; e Anne Hathaway, co-apresentadora do Oscar em 2011, vestiu Valentino em uma noite que misturou glamour e sobriedade.
Outros nomes como Sienna Miller e Penélope Cruz também foram seduzidos pela maison, demonstrando que o estilo de Valentino não é apenas alta-costura, mas um eco cultural: suas peças atuam como amplificadores de identidade, transformando o vestido em gesto público. Na morte do criador, o que se encerra é uma era onde o alfaiate era estrategista de imagens — e as estrelas, suas coautoras.
Enquanto o mundo da moda se prepara para os funerais em Roma e para reavaliar o legado do chamado “último imperador” da moda, o que permanece é a trajetória das roupas que habitaram momentos decisivos do cinema. Cada vestido é uma cena, cada cor uma trilha sonora. E o vermelho, sobretudo, continuará a ser a assinatura que lembra: a moda também escreve história.





















