Existe uma corrida menos conhecida no Ocidente que, apesar de não ter a pompa das praças espanholas, é igualmente — se não mais — perigosa. No estado indiano do Tamil Nadu, um ritual milenar chamado jallikattu coloca homens e touros num confronto corpo a corpo, onde a ousadia beira a temeridade e a tradição encontra a controvérsia.
No jallikattu os competidores não usam espadas nem banderilhas: a prova exige que o participante suba no dorso do animal e o mantenha sob controle apenas com as próprias mãos, sem segurar a cauda, o pescoço ou os chifres — regras que, na prática, são frequentemente desrespeitadas diante do risco real de queda e de grave ferimento. O resultado é uma disputa de altíssimo risco, tanto para os humanos, que podem ser chifrados, arremessados contra obstáculos e pisoteados, quanto para os touros, que muitas vezes saem do evento feridos ou mortos.
As competições oficiais costumam ocorrer em três formatos: em recinto fechado, em campo aberto ou com o touro preso a uma corda amarrada a um mastro, que permite movimentação limitada. Porém, em contextos rurais, as regras podem ser ignoradas e os animais são submetidos a agressões — como pancadas com bastões e puxões fortes de cauda — práticas que tornam a festa uma cena de violência contra seres sencientes.
Participantes defendem o jallikattu como parte da tradição e identidade local, um laço cultural que remonta a séculos. Já grupos pelos direitos dos animais, inclusive organizações atuantes no subcontinente, exigem o fim da prática e denunciam a crueldade infligida aos touros. O balanço humano e animal é pesado: todos os anos há um número significativo de feridos e mortes, além do sofrimento subjacente que esses animais suportam.
Imagens e relatos reunidos pela La Via Italia mostram que episódios similares ocorrem também fora da Índia, em locais rurais de países como Mianmar, onde as cenas refletem a mesma mistura de festividade e violência. Essas imagens iluminam um debate que ultrapassa fronteiras: até que ponto preservar costumes justifica a repetição de danos evitáveis?
Há uma urgência ética de repensar ritos onde o risco e a dor são centrais. Precisamos semear inovação nas práticas culturais: preservar memórias e identidades sem perpetuar violência. Promover alternativas — eventos simbólicos sem sofrimento animal, educação comunitária e regulamentação rígida — é uma forma concreta de cultivar valores que alinhem tradição e compaixão.
Enquanto o debate segue aceso, permanece o retrato doloroso: homens que sobem ao dorso do perigo, touros que pagam com a vida, comunidades divididas entre orgulho e remorso. A tarefa, como curadora, é clara: iluminar novos caminhos que permitam que a cultura cresça sem feridas, transformando rituais em celebrações que honrem tanto as pessoas quanto os animais envolvidos.






















