Por Stella Ferrari — Em um momento em que o tabuleiro geopolítico exige respostas rápidas e engenhosas, o grupo Leonardo reposiciona seu portfólio estratégico em direção a dois vetores complementares: o ambicioso Golden Dome nos Estados Unidos, estimado em US$175 bilhões para proteção antimíssil, e o desenvolvimento do Michelangelo Security Dome, uma arquitetura digital destinada a integrar ativos de defesa com foco em inteligência artificial, radar e cybersecurity.
Desde que Roberto Cingolani assumiu a direção executiva de Leonardo em 9 de maio de 2023, a empresa tem ajustado a calibragem de sua estratégia diante do agravamento das tensões internacionais — da guerra na Ucrânia às chamas que reascenderam no Oriente Médio, passando por zonas críticas no Venezuela e no Irã. O cenário conta hoje com 59 conflitos distribuídos globalmente, exigindo da indústria de defesa a mesma precisão de um motor de alta performance: desempenho previsível sob condições extremas.
Cingolani tem sido enfático quanto à necessidade de respostas coordenadas e alianças robustas. A fragmentação dos investimentos entre os 27 Estados-membros da União Europeia reduz a capacidade de resposta coletiva; por isso, a única rota viável é o fortalecimento das parcerias entre indústrias e instituições, acelerando a entrega de soluções operacionais para exército, marinha e aviação.
O executivo também alertou para a presença de ogivas nucleares russas posicionadas na Bielorrússia e para a ausência, no momento, de sistemas europeus equivalentes que assegurem uma dissuasão mútua. Chamar o movimento de rearme de mero jargão é insuficiente, diz Cingolani: à escala estratégica, trata-se de uma transformação industrial que algumas potências — como Rússia e China — já converteram em economia de guerra. Se a Europa mantiver os freios da hesitação, pode ficar vulnerável não só a conflitos convencionais, mas também a estratégias híbridas e ataques cibernéticos.
No âmbito do plano europeu Safe, para o qual a Itália pleiteou cerca de €15 bilhões, Leonardo aponta prioridades claras em conjunto com as Forças Armadas e o Ministério da Defesa: defesa aérea contra drones e mísseis e, sobretudo, a arquitetura que tornará esses sistemas interoperáveis. É neste campo que se insere o Michelangelo Security Dome — mais do que um produto, uma plataforma tecnológica que conecta sensores, centros de comando e capacidades de resposta com suporte intensivo de IA, redes de radar e defesas de cybersecurity.
Nos Estados Unidos, mercado que a empresa já considera seu segundo lar operativo, a estratégia passa por aprofundar sinergias com a controlada DRS, agora sob a liderança do novo CEO John Baylouny. Otimizar presença e integração local significa ajustar a entrega industrial à velocidade das demandas americanas, alinhando design de políticas e capacidades tecnológicas para concretizar propostas como o Golden Dome.
Como estrategista, vejo nessa dupla investida — um programa defensivo de escala macro nos EUA e uma plataforma digital integradora na Europa — a combinação entre potência de fogo e inteligência de sistemas. Trata-se de uma aceleração das tendências de defesa moderna: quem dominar a arquitetura de dados e a robustez dos sensores terá vantagem decisiva no teatro das ameaças contemporâneas.
Para Leonardo, o desafio é transformar essa visão em entregas tangíveis, mantendo a excelência industrial e a confiabilidade operacional. A governança dessas iniciativas exigirá, mais do que nunca, uma engenharia fina: calibragem de recursos, parcerias industriais robustas e investimentos contínuos em IA, radar e cybersecurity — os eixos do novo motor que pretende impulsionar a segurança europeia e transatlântica.






















