Por Giulliano Martini — A disputa política entre Berlim e Washington sobre a transição automotiva expõe caminhos opostos para a mesma questão: como tornar a mobilidade sustentável viável sem sacrificar a indústria e a acessibilidade. A realidade traduzida pelos números e pelas decisões do governo mostra que carros elétricos continuam a depender de intervenção pública — ao menos na Alemanha — enquanto os Estados Unidos optam por reduzir regras ambientais para baixar preços.
O governo alemão anunciou um pacote de apoio que disponibiliza até 6.000 euros por comprador, distribuídos segundo tipo de veículo e renda do adquirente, para estimular a compra de veículos elétricos. O incentivo base é de 3.000 € para veículos totalmente elétricos e 1.500 € para híbridos plug-in (PHEV) ou veículos com range extender. Para que PHEV e range extender sejam elegíveis, eles devem emitir menos de 60 g CO2/km ou ter autonomia elétrica mínima de 80 km.
Berlim alocou 3 bilhões de euros para o programa, com previsão de subsidiar até cerca de 800.000 veículos até 2029. O ministério responsável permitiu requerimentos retroativos para novas matrículas a partir de 1º de janeiro. Importações não serão excluídas — incluindo veículos fabricados na China — medida que sinaliza uma tentativa de proteger a competitividade da indústria automotiva nacional sem implodir o comércio.
Do outro lado do Atlântico, a administração Trump trilha rota contrária. A estratégia norte-americana aposta na desregulamentação das normas de emissões para reduzir custos e ampliar a oferta de veículos mais baratos. Segundo a consultoria Cox Automotive, em dezembro o preço médio de um carro novo nos EUA atingiu recorde de 50.326 dólares, reflexo da preferência por picapes e SUVs mais caros e da redução de modelos de entrada no mercado.
Apesar das mudanças regulatórias e de medidas tarifárias, as vendas de veículos novos nos Estados Unidos cresceram 2,2% em 2025, para 16,35 milhões de unidades. O secretário de Transportes, Sean Duffy, defende que a retirada de barreiras ambientais “trará redução nos preços e permitirá que as montadoras ofertem produtos que os americanos desejam”. Ele ressalta que não se trata de uma “guerra contra os veículos elétricos”, mas afirma que a administração não deve usar políticas públicas para privilegiar obrigatoriamente as elétricas em detrimento dos motores a combustão.
Além disso, a administração norte-americana revogou o crédito fiscal de 7.500 dólares para veículos elétricos instituído na era Biden, anulou normas ambientais estaduais da Califórnia e eliminou penalidades para montadoras que não atendem metas verdes anteriores. São ações que reconfiguram o mercado e pressionam os fabricantes a reavaliar estratégias de produto e preço.
O contraste entre as duas abordagens expõe um dilema recorrente: subsídios e regras claras para acelerar a transição versus afrouxamento regulatório para preservar acesso e volume de vendas. Em termos práticos, a Alemanha prioriza estímulo direto às compras para sustentar a indústria e as metas climáticas; os EUA priorizam tornar os veículos imediatamente mais acessíveis, sacramentando um recuo nas exigências ambientais.
Apuração e cruzamento de fontes mostram que, no curto prazo, ambos os caminhos podem gerar resultados distintos em vendas e composição da frota. No médio e longo prazo, a questão será técnica e econômica: quem consegue conciliar competitividade industrial, redução de emissões e redução do custo total de propriedade para o consumidor. A resposta determinará o rumo da mobilidade nos dois principais mercados automotivos do mundo.






















