Apuração in loco — Em resposta ao dramático incêndio do navio Constellation em Crans-Montana, cabeleireiros na Itália lançaram uma corrente de ajuda prática: coletar trecce para a confecção de parrucche destinadas às vítimas. A iniciativa, originada na França e coordenada com a associação suíça Rolph Ag, oferece corte e penteado gratuitos a quem doar mechas não tratadas de pelo menos 30 centímetros.
O clamor por esse gesto nasce de constatações médicas duras. Como relatou o cirurgião Benedetto Longo ao nosso veículo, os cuidados imediatos têm de ser também “reconstrutivos”: muitos feridos perderam pele e cabelo, e recuperá-los é parte essencial da restituição de dignidade e reconhecimento facial. “Senza più pelle, né capelli, quei ragazzi erano ancora vivi ma sembravano scheletri”, sintetiza a gravidade do quadro.
No fronte italiano, entre os profissionais que aderiram está Sabrina Yueqiong Pan, do SP Hair Studio, em Busto Arsizio. Em vídeo divulgado no Instagram, Sabrina explica a lógica do gesto: “Questo è un piccolo gesto per te, ma un enorme aiuto per loro. Unisciti a noi”. O salão já recolheu várias tranças desde o anúncio. Outro estabelecimento presente na mobilização é o Beauty Corner, de Occhieppo Inferiore (Biella), comandado por Erika Schiapparelli, que se disse inspirada por publicações da colega francesa L’atelier Capillaire d’Aurélie.
Sabrina enfatiza que a ação é completamente voluntária e gratuita: quem doar 30 centímetros de cabelo não tratado recebe corte e piega por conta do salão. Ela lembra experiências anteriores com doações para pacientes oncológicos e relata mensagens de apoio recebidas até de outras cidades como Milão. Também condena postagens que relativizam a tragédia com a alegação de que as vítimas seriam “bem‑estantes”: “Io non lo capisco e faccio quello che mi sembra giusto”, responde.
A Rolph Ag, contactada pelos profissionais, detalha o processo: ao chegar, as tranças são inspecionadas, limpas e selecionadas segundo estrutura e cor. A elaboração de uma prótese capilar demanda várias tranças e pode levar meses, conforme a quantidade recebida e a complexidade do trabalho artesanal. A associação orienta que o envio seja feito por meio do cabeleireiro que coletou a doação, para garantir a rastreabilidade e o acondicionamento corretos.
Aspectos técnico‑clínicos também são lembrados: se os folículos capilares não foram comprometidos pelo trauma térmico até o couro cabeludo, o cabelo pode voltar a crescer normalmente; caso contrário, a recuperação é incerta. Por isso a disponibilidade de perucas feitas com cabelo natural assume papel central na reabilitação estética e psicológica dos sobreviventes.
Do ponto de vista jornalístico, a mobilização ilustra como gestos locais — corte, coleta, logística de envio — se ligam a redes transfronteiriças de solidariedade. A iniciativa já reúne profissionais que oferecem serviço sem custo, voluntários que anunciam disponibilidade nas redes e uma organização suíça que transforma fios em peças de reintegração social. Rigor na verificação das informações e acompanhamento do processo de entrega das perucas serão necessários nas próximas semanas para mapear a eficácia real da ação.
Quem pretende aderir deve procurar um salão participante ou contatar a Rolph Ag para instruções sobre comprimento mínimo (30 cm) e condição do cabelo (não tratado). Trata‑se de um gesto simples na execução, mas de impacto concreto na vida de quem perdeu, além de sinalizar como a solidariedade técnica e profissional pode complementar as intervenções médicas em situações de grande trauma.






















