Davos, 19 de janeiro de 2026 — Começa hoje o WEF Davos 2026, palco anual onde se reúnem as principais lideranças políticas, empresariais e institucionais do mundo. Em um momento de alta tensão nas relações internacionais, o encontro assume papel estratégico: um movimento decisivo no tabuleiro em que se redesenha, por vias formais e informais, a nova tectônica de poder.
Entre os temas que dominarão os debates estão a situação na Ucrânia, os interesses estratégicos envolvendo a Groenlândia e a crise política e humanitária no Venezuela. Também estão previstos painéis sobre o Oriente Médio, as eleições em países asiáticos e o papel renovado das Nações Unidas em crises transnacionais.
Espera-se a presença de cerca de 3.000 participantes de mais de 130 países, entre eles aproximadamente 400 lideranças políticas e cerca de 65 chefes de Estado ou de governo, além de cerca de 850 presidentes e administradores delegados das maiores empresas globais. Amanhã está agendado o discurso do presidente ucraniano Zelensky, enquanto o ex-presidente Trump falará em data posterior para apresentar os membros do chamado “Board of Peace” para Gaza. Fontes oficiais não descartam um encontro bilateral entre os dois presidentes para tratar, em particular, da questão ucraniana — um lance cuja necessidade estratégica está clara no tabuleiro diplomático contemporâneo.
O fórum, reconhecido como o ponto de encontro das chamadas “élites globais”, ocorre pela primeira vez sem a figura fundadora e histórica do evento, Klaus Schwab, que renunciou em abril de 2025 após investigação interna. O inquérito apontou práticas que incluem a suposta exigência de que funcionários sacassem dinheiro em seu nome, o pagamento de serviços pessoais com recursos da fundação e viagens de luxo justificadas como missões oficiais. Ao longo do último ano, Schwab também foi alvo de acusações de racismo, assédio sexual e demissões de mulheres grávidas; todos esses fatos constam nas apurações e foram amplamente divulgados.
Após a saída de Schwab, a presidência do Fórum passou inicialmente ao vice-presidente Brabeck-Letmathe, sendo sucedida por Børge Brende, numa transição que busca reparar os alicerces frágeis da instituição e preservar seu espaço de influência no cenário global. O episódio expõe tanto a vulnerabilidade institucional quanto a urgência de restauração de legitimidade, aspectos que estarão subjacentes às discussões de Davos.
Ao lado das mesas formais, persiste a sombra das narrativas paralelas: relatos sobre a presença de redes de entretenimento e festas exclusivas durante o encontro — com referências a uso de drogas e serviços de acompanhantes — que, ano após ano, alimentam o imaginário público sobre os bastidores das decisões. Essas histórias, verdadeiras ou exageradas, atuam como ruído que desvia a atenção do debate substantivo, mas também mostram a tensão entre imagem e poder.
Na leitura estratégica que proponho, este WEF Davos 2026 será um teste de governança global: um momento em que se confrontam interesses nacionais, poder econômico e a busca por estabilidade multilateral. Como em um jogo de xadrez bem jogado, cada movimento — discursos, bilaterais, declarações de agenda — será calculado para consolidar posições e redesenhar fronteiras invisíveis de influência.
Marco Severini
Analista sênior, La Via Italia






















