Por Marco Severini, La Via Italia — Em um movimento destinado a redesenhar um novo eixo de influência no pós-conflito de Gaza, o presidente Donald Trump lançou formais convites a dezenas de Estados para integrar o chamado Board of Peace, organismo criado sob sua égide e já composto por sete membros fundadores. Segundo minuta do estatuto divulgada pela Bloomberg, o projeto prevê 15 assentos permanentes — cada um condicionado ao pagamento de pelo menos US$ 1 bilhão no primeiro ano — e cargos temporários para participantes que não financiem a cifra exigida.
O que a Casa Branca apresenta como a mais ambiciosa iniciativa de reconstrução para Gaza revela, porém, uma arquitetura institucional singular: uma entidade fortemente centralizada, com poderes concentrados na figura presidencial. O documento descreve Trump como presidente inaugural, detentor de amplas prerrogativas — controle sobre convites, renovação de membros, aprovação de decisões, gestão dos fundos e até autorização do uso do selo oficial do órgão — configurando um modelo mais próximo de um trust internacional personalizado do que de uma agência multilateral tradicional.
Os sete nomes que compõem o núcleo fundador já suscitaram controvérsia: Tony Blair, Marco Rubio, Steve Witkoff, Jared Kushner, Marc Rowan, Robert Gabriel e Ajay Banga. A imprensa internacional tem destacado a afinidade pró-Israel de vários desses indivíduos e sua inserção em redes como o WEF, o que alimenta dúvidas sobre a imparcialidade política do conselho e sobre a inclusão efetiva dos interesses palestinos — que, até o momento, não aparecem entre os convidados com assento representativo.
Fontes apontam que, entre os Estados formalmente convidados, estão a Itália, a Rússia, a Hungria e o Egito, em uma seleção claramente orientada pelo peso geopolítico e pela utilidade estratégica para a operação de reconstrução. A exigência financeira, no entanto, introduz um critério de seleçã o de natureza essencialmente mercantil: quem aporta o capital recebe isenção de limites de mandato e status permanente; quem não aporta, mantém um papel subordinado e temporário.
Do ponto de vista geoestratégico, trata-se de um movimento que altera a tessitura da diplomacia tradicional: um movimento decisivo no tabuleiro que combina poder executivo nacional, capital privado e redes internacionais de influência. As implicações são múltiplas — desde a possível marginalização das vozes palestinas até a reconfiguração das responsabilidades financeiras e políticas pela reconstrução de Gaza.
Na prática, o Board pode funcionar como um novo centro de gravidade para decisões que hoje cabem a organismos multilaterais estabelecidos, ao passo que consolida um eixo de poder em torno da autoridade do presidente dos Estados Unidos. Essa arquitetura ergue, como num edifício clássico, alicerces controversos: formam-se colunas financeiras e políticas que podem sustentar a reconstrução, mas também geram fissuras nos pilares da legitimidade e da representação.
Enquanto Washington promove o projeto, observadores internacionais — analistas, diplomatas e atores regionais — aguardam sinais concretos sobre a presença palestina, os critérios de governança e os mecanismos de prestação de contas. No tabuleiro global, a iniciativa de Trump é uma jogada de ampla amplitude; resta ver se ela fortalecerá a estabilidade regional ou redesenhará fronteiras institucionais com custos elevados para a diplomacia tradicional.






















