Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha uma vez mais as linhas do poder no arquipélago, a primeira‑ministra Sanae Takaichi anunciou hoje a convocação de eleições antecipadas para a câmara baixa do Parlamento. A dissolução será formalizada no início da sessão ordinária da Diet, que se abre em 23 de janeiro; a campanha terá início em 27 de janeiro e o pleito está marcado para 8 de fevereiro.
A líder conservadora — a primeira mulher a assumir oficialmente o cargo de chefe de governo no Japão, em outubro passado — justificou a medida como um pedido direto ao eleitorado: “Pedirei aos cidadãos que decidam se mereço permanecer à frente do governo”. Trata‑se de um movimento calculado: com índices de aprovação superiores a 60%, Takaichi pretende transformar sua popularidade em uma margem parlamentar mais confortável.
No entanto, a aritmética política que a coalizão enfrenta é frágil. Atualmente, a aliança de governo sustenta uma maioria tênue na câmara baixa, obtida com o apoio de três parlamentares independentes. Para ampliar esse espaço de manobra, Takaichi aposta na nova parceria entre o Liberal‑Democratas (LDP) e o Partido da Inovação Japonês (JIP), apresentando a consulta eleitoral como um referendo sobre sua política econômica — que ela definiu como “responsável, mas agressiva” — e sobre a estabilidade da coalizão.
O pano de fundo institucional é tenso. Menos de um ano e meio separa este chamado eleitoral da última eleição geral, quando o LDP, sob a liderança do então primeiro‑ministro Shigeru Ishiba, perdeu a maioria na câmara baixa junto ao seu parceiro menor, o Komeito. A perda de terreno repetiu‑se nas eleições de julho para o Senado, precipitando a renúncia de Ishiba meses depois. Em termos de tectônica política, a atual manobra de Takaichi busca recolocar as peças sobre o tabuleiro — reforçar fileiras, consolidar alianças e recuperar a iniciativa estratégica.
Analistas destacam que o calendário parlamentar impõe obstáculos práticos: antes de qualquer renovação da câmara, o governo terá de negociar e aprovar a lei orçamentária para o exercício de 2026, que entra em vigor em abril. Foi justamente na área fiscal que a oposição concentrou críticas vigorosas nos últimos dias.
Do lado contrário, forças de oposição reagiram rapidamente. O Partido Democrático Constitucional (DPCJ) e o Komeito — este último ex‑aliado histórico dos conservadores — anunciaram a formação da chamada “Aliança Reformista Centrista”, posicionando‑se como o principal bloco de contestação ao executivo. A nova configuração promete um confronto político mais polarizado e um debate público centrado tanto em prioridades econômicas quanto em governabilidade.
Como observador das dinâmicas internacionais, vejo esta convocação como um movimento de alto risco calculado. Em termos geopolíticos, a estabilidade do governo japonês tem reflexos regionais e globais: de alianças de defesa a fluxos econômicos e cadeias de abastecimento. No xadrez da política, Takaichi jogou uma peça decisiva — resta saber se conseguirá transformar o impulso inicial em um roque seguro que venha a fortalecer os alicerces de sua administração.






















