Bruxelas — Em entrevista coletiva em Bruxelas, o economista-chefe do FMI, Pierre-Olivier Gourinchas, apresentou as novas projeções do World Economic Outlook e sublinhou que as tensões geopolíticas e um possível aumento das tarifas configuram um dos riscos mais prementes para a economia mundial. O comentário veio acompanhado de uma referência explícita às ameaças do então presidente dos EUA, Donald Trump, relativas à Groenlândia — e às advertências a países que pudessem enviar tropas para “assegurar” a ilha, no contexto das ambições do magnata em transformar o território em parte dos Estados Unidos.
Gourinchas destacou que as atuais projeções do FMI partem do pressuposto de que o nível de tarifas permanecerá inalterado. No entanto, advertiu que uma escalada nas medidas protecionistas ou uma deterioração das tensões geopolíticas constituiriam “um risco relevante” que poderia impactar de maneira significativa o crescimento global. Em termos práticos, isso significa que uma mudança abrupta no desenho das políticas comerciais pode introduzir choques de oferta e custos adicionais às cadeias globais de valor, reduzindo a velocidade de expansão econômica — algo que, na metáfora automobilística que utilizo, funcionaria como um ajuste nos freios do motor da economia justamente quando é necessário acelerar.
Ao mesmo tempo, o relatório do World Economic Outlook ressalta que o choque potencial das tarifas mais altas e a reorientação das políticas comerciais não afundariam por completo a expansão global. Essa resiliência é atribuída, em grande medida, ao robusto aumento dos investimentos tecnológicos, com ênfase na inteligência artificial. O FMI identifica a onda de investimentos em tecnologia como um motor de tração — especialmente na América do Norte e na Ásia — capaz de sustentar a produtividade e mitigar parte dos efeitos adversos do protecionismo.
Nas projeções consolidadas, o Fundo prevê um crescimento mundial estável de 3,3% para 2026, recuando levemente para 3,2% em 2027, números que replicam a robustez observada em 2025 (3,3%). As estimativas para 2026 foram revisitadas de forma marginal para cima em relação às previsões de outubro, impulsionadas pelo dinamismo dos investimentos em tecnologia e pela adoção acelerada de aplicações de inteligência artificial em setores-chave.
Quanto à Europa e especificamente à Itália, o FMI ajustou ligeiramente para baixo a previsão de crescimento para 2026. Após um avanço de 0,5% em 2025, o Produto Interno Bruto italiano está projetado para crescer 0,7% em 2026 (contra 0,8% estimado em outubro). Para 2027, a previsão mantém um crescimento de 0,7%, com uma revisão marginal de +0,1 ponto em relação ao prognóstico anterior. Esses números refletem tanto a fragilidade estrutural persistente em algumas economias avançadas quanto os efeitos contrabalançantes dos investimentos em tecnologia.
Em suma, o diagnóstico do FMI é claro: a economia global navega com um motor relativamente potente graças à inovação tecnológica, mas continua vulnerável a choques geopolíticos e tarifários. A tarefa de política econômica é, portanto, uma questão de calibragem fina — ajustar os “freios fiscais” e a política monetária sem tolher a aceleração dos investimentos em tecnologia que sustentam o crescimento.
Assinatura: Stella Ferrari — Economista sênior, foco em desenvolvimento e mercados de alta performance. Observadora das interseções entre política, tecnologia e capital.






















