Ornella Vanoni ocupou ontem à noite, 18 de janeiro, o palco e o imaginário coletivo com Ornella Senza Fine, programa exibido pelo canal Nove que se transformou num raro evento televisivo de emoção autêntica. Mais do que um recital de canções, foi um espelho do nosso tempo: uma lição sobre liberdade, memória e a coragem de viver sem pedir permissão.
Ao encerrar a noite, a artista deixou uma frase que resume bem o tom do encontro: “Amei até mais do que o necessário, fiz o devido e o extraordinário”. Foi com essa declaração que se percebeu que o tributo foi também uma celebração da existência inteira de Ornella — das escolhas, dos tropeços e das retomadas. A noite, organizada com a sensibilidade já conhecida do time de Fabio Fazio, com Luciana Littizzetto e a equipe de Che Tempo Che Fa, escapou dos protocolos televisivos e quebrou a quarta parede, chegando com calor humano ao público em casa.
O início esteve nas mãos de Marco Mengoni, que abriu com “Senza Fine” em arranjo de tons jazzísticos ao lado do trompetista Paolo Fresu. A combinação entre a voz contemporânea de Mengoni e o lirismo de Fresu foi um refrão de elegância que evidenciou a atemporalidade da canção — cuja história foi lembrada pelo neto de Ornella, Matteo, ao citar a memória de Gino Paoli e os pequenos papéis da criação: “ele veio com folhas e me disse ‘escolhe tu’”.
A dramaturgia musical conversou com depoimentos e interpretações variadas: Loredana Bertè trouxe sua intensidade dramática, enquanto Annalisa traduziu em minimalismo e precisão emocional “Una ragione di più”, reforçando como letras de 1970 seguem ecoando nas urgências de hoje. A presença de Virginia Raffaele foi além da imitação — um diálogo artístico que celebrou a ironia, a liberdade e a ousadia de Ornella.
Houve também homenagens que cruzaram geografia e afinidade estética: Fiorella Mannoia, com a parceria de Toquinho, trouxe ao palco a brasilidade que sempre foi um atributo querido por Ornella, numa ponte sonora entre Itália e Brasil. O encontro com Mahmood em “Sant’Allegria” se revelou um pequeno tesouro: a cumplicidade entre gerações e o afeto evidente — “este rapaz eu amo, é como se o conhecesse há sempre”, disse Ornella, com a voz fora de cena, emocionando.
Entre os convidados apontados pela noite estiveram também Emma e outros artistas que confirmaram como a obra de Vanoni orienta caminhos e inspira vozes diversas. A cidade de Milão, representada pelo prefeito Beppe Sala e pelo assessor Sacchi, compareceu para prestar homenagem à artista, simbolizando o reconhecimento público àquela cuja carreira é, de fato, um patrimônio cultural.
Mais do que rever um repertório, Ornella Senza Fine funcionou como um reframe da realidade: uma experiência televisiva que nos lembrou que a liberdade — de amar, errar e recomeçar — é o gesto político e estético mais radical. A transmissão teve a precisão de um roteiro bem escrito e a graça de um improviso sincero; foi, em essência, um pequeno milagre de sensibilidade no cenário televisivo atual.
Enquanto as luzes se apagavam, permanecia a sensação de que a música de Ornella não é apenas um catálogo de canções famosas, mas um manual de sobrevivência afetiva. Numa noite em que o palco virou sala de estar coletiva, vimos que a arte continua sendo o espelho que devolve a nós mesmos, convidando à reflexão sobre a própria vida.





















