Por Marco Severini — Em uma carta dirigida ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, e divulgada por emissoras internacionais, o ex-presidente e figura central da política externa dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma que não se sente mais obrigado a priorizar exclusivamente a paz — após não ter sido agraciado com o Prêmio Nobel da Paz, concedido neste ano à líder da oposição venezuelana María Corina Machado.
Segundo relatos da imprensa internacional e da emissora britânica Sky News, que afirma ter obtido a carta, Trump escreve que, “considerando que teu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por ter parado 8 guerras a mais, não me sinto mais em dever de pensar exclusivamente na paz, embora ela permaneça predominante; agora posso pensar no que é bom e justo para os Estados Unidos da América”. A declaração, traduzida livremente, representa um deslocamento retórico: da pose tradicional de pacificador para uma retórica de primazia dos interesses nacionais.
Na mesma correspondência, o ex-presidente volta sua atenção a um ponto estratégico do Atlântico Norte: a Groenlândia. Ele questiona a capacidade da Dinamarca de proteger o território contra influências externas, notadamente Rússia e China, e desafia a ideia de um “direito de propriedade” baseado em longínquas chegadas de navios. “Não há documentos escritos; apenas uma embarcação lá aportou há séculos, e nós também tivemos navios que ali aportaram”, escreve Trump, segundo os trechos divulgados.
O tom da carta expõe uma visão clara de poder: Trump sustenta que fez mais pela OTAN desde sua fundação do que qualquer outro e defende que a aliança deveria agir em favor dos interesses estadunidenses, insistindo que “o mundo não será seguro enquanto não tivermos controle completo e total da Groenlândia” — formulação que traduz um imperativo estratégico sem precedentes no discurso público contemporâneo sobre a região.
Há, nessa comunicação, elementos que merecem ser lidos como movimentos em um tabuleiro geopolítico: uma jogada destinada a recalibrar percepções, testar reações e afirmar prioridades. Se interpretada através da lente da Realpolitik, a carta é um aviso, não apenas um lamento por um prêmio não concedido. É também um apelo para reavaliar os alicerces frágeis da diplomacia ocidental frente ao redesenho de fronteiras invisíveis imposto por potências revisionistas.
Como analista, observo que a menção pública a questões como a soberania da Groenlândia — um ponto sensível envolvendo aliados históricos — tem o efeito de reabrir debates sobre segurança regional, logística militar e interesses econômicos (recursos e rotas). Trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro: força discursiva projetada para influenciar políticas, aliados e eleitorado.
Em última instância, a carta reflete tanto a personalidade combativa de Trump quanto uma estratégia de poder que privilegia o interesse nacional explícito sobre discursos de estabilidade coletiva. O capítulo norueguês dessa narrativa geo-estratégica permanece em aberto — e suas repercussões exigirão atenção institucional e diplomática cuidadosa.






















