Por Giulliano Martini — Apuração e cruzamento de fontes in loco: a principal criptomoeda estável do mercado, a Tether, tornou‑se hoje um componente central nas estratégias de países sancionados para manter fluxos comerciais e financeiros. O token atrelado ao dólar é usado, segundo investigações e documentos públicos, como meio de contornar barreiras impostas por medidas norte‑americanas e europeias.
Na Venezuela, a adoção de instrumentos digitais foi incentivada pelo governo para proteger receitas em face do colapso do bolívar e das sanções que restringem o acesso direto a dólares. Empresas estatais do setor petrolífero, incluindo a PDVSA, passaram a aceitar ativos digitais em determinadas operações e a converter esses tokens em moedas de parceiros comerciais considerados “amigos” — mecanismo que, na prática, reduz a exposição a intermediários financeiros ocidentais.
O caso russo segue lógica semelhante, em escala mais ampla. Desde 2024, conforme legislações e medidas administrativas do governo de Moscou, houve avanços para reconhecer e regular o uso de ativos digitais em pagamentos externos de grandes empresas. A intenção declarada é viabilizar comércio com mercados como China, Índia, Turquia e Emirados Árabes Unidos sem depender exclusivamente do sistema financeiro tradicional dominado pelo dólar.
Especialistas e fontes de mercado descrevem o resultado como uma “rede paralela” que replica o valor do dólar por meio de tokens e permite, depois, conversões para yuan, rúpia ou dirham. Para analistas de sanções, a operação cria desafios técnicos e políticos: bloquear fluxos exige rastreamento na blockchain e coordenação internacional que nem sempre acompanham a velocidade das transações digitais.
No centro dessa engenharia financeira aparece uma figura de origem italiana: Giancarlo Devasini, associado ao ecossistema da Tether e das plataformas ligadas ao mesmo grupo. Relatórios públicos e apurações do setor apontam sua posição de destaque na estrutura acionária e operacional. Ao lado de executivos como Paolo Ardoino, a administração da Tether consolidou presença relevante no mercado de stablecoins, cuja capitalização alcança centenas de bilhões de dólares.
Autoridades americanas já aplicaram penalidades à empresa em anos recentes. Em 2021, houve um acordo com o escritório da procuradora de Nova York que incluiu multas e exigências sobre declarações das reservas; processos e decisões administrativas subsequentes envolveram órgãos como a CFTC. Ao mesmo tempo, a própria Tether comunicou colaboração com o OFAC — o departamento do Tesouro americano responsável por sanções — na identificação e bloqueio de carteiras consideradas suspeitas.
Relatórios de organismos internacionais também levantam riscos: a blockchain é apontada como vetor preferencial para parte dos fluxos ilícitos no Sudeste Asiático, incluindo tráfico e lavagem de capitais. Porém, quando o uso do token sustenta economias nacionais sob sanções, a reação política e sancionadora dos Estados Unidos tem sido seletiva, mesclando medidas punitivas com esforços de controle tecnológico.
O cenário cria um dilema estratégico. Para autoridades que impõem sanções, cortar o acesso a uma plataforma amplamente usada globalmente implica custos geopolíticos e técnicos. Para os países sancionados, a adoção de stablecoins como a Tether oferece uma alternativa pragmática para preservar comércio e receitas. A realidade traduzida em dados e operações é clara: a criptomoeda não é apenas um ativo financeiro, mas um instrumento com impacto direto em políticas externas e na eficácia das sanções.
Estas são as constatações após o cruzamento de documentos públicos, comunicados oficiais e entrevistas com especialistas do setor financeiro e de compliance. A vigilância sobre o fenômeno continua, assim como as disputas regulatórias que devem definir os limites entre inovação financeira e contorno de regimes de restrição.



















