Por Marco Severini — Analista de Geopolítica
Uma virada estratégica no nordeste da Síria redesenha, de forma abrupta, a tessitura do poder local. As forças leais a Ahmad Al Sharaa, apoiadas pelos Estados Unidos e pela Turquia, consolidaram o controle sobre os territórios curdos a leste do Eufrates, pondo fim — de modo quase pacífico — à experiência autonómica conhecida como Rojava.
Após uma ofensiva de Damasco que avançou contra as posições curdas em Aleppo nas primeiras semanas de janeiro, as tropas governamentais retomaram as cidades-chave de Raqqa e Deir ez-Zor. Esses nós urbanos são decisivos: dominam poços petrolíferos, recursos hídricos e rotas logísticas que sustentam o equilíbrio regional. As forças curdo-sirianas, fragilizadas pela derrota em Aleppo e pressionadas pela diplomacia norte-americana, optaram por não prolongar o confronto e assinaram um acordo de rendição política e administrativa.
O tratado, selado em Damasco entre Al Sharaa, o líder curdo Mazlum Abdi e o mediador norte-americano Thomas Barrack, foi qualificado por Washington como um “ponto de virada”. Em troca do reconhecimento, por parte de Damasco, de direitos civis inéditos para a população curda — algo que não ocorria em termos comparáveis desde 1962 — as autoridades centrais assumem o controle pleno da região: recursos naturais, fronteiras internas, postos administrativos, valas de segurança e as prisões onde se encontram cerca de 20 mil suspeitos ligados ao Estado Islâmico, além dos campos que abrigam mulheres e menores de dezenas de nacionalidades.
Em termos práticos, trata-se de uma troca de parceiros na narrativa antiterrorista: os Estados Unidos mantêm, formalmente, a continuidade da luta contra o extremismo, mas substituem as forças curdas tradicionais — que libertaram Raqqa e resistiram em Kobane há uma década — por forças governamentais alinhadas a Al Sharaa. Importa lembrar que o próprio Sharaa foi até recentemente rotulado como “terrorista” pelo Departamento de Estado norte-americano, devido a vínculos passados com a militância jihadista, o que torna esta normalização uma jogada de forte teor realpolítico.
O acordo deixa questões substantivas em aberto. Não há clareza sobre a forma de integração das milícias curdas nas forças regulares de Damasco — se será por adesão individual ou em unidades organizadas — nem sobre o destino específico das milhares de combatentes curdas, muitas delas mulheres, cuja presença política e simbólica marca a experiência do Rojava. A cultura militar e social do Exército sírio, de predominância árabe e hierarquicamente conservadora, aponta para uma provável marginalização desses contingentes femininos.
A divisão administrativa do nordeste permanece no papel, mas as bandeiras mudam: os símbolos do projeto curdo gradualmente darão lugar aos estandartes do governo central e de forças filo-turcas que agora circulam na região. Damasco reassume o controle de Raqqa e Deir ez-Zor; aos curdos pode restar uma gestão civil limitada no governorato de Hasake, encaixado entre Turquia e Iraque. Esta transição configura um redesenho de fronteiras invisíveis na tectônica de poder regional, um movimento decisivo no tabuleiro que terá repercussões duradouras.
Em suma, o fim do Rojava não é apenas a dissolução de um experimento político-militar, mas também a cristalização de novas alianças e dependências: os Estados Unidos entregam, tacitamente, a alçada sobre recursos e assuntos de segurança a um governo que reabsorve autoridade e que, ao mesmo tempo, se encontra em confluência com interesses turcos. É uma jogada de alto risco diplomático e estratégico, cujo sucesso dependerá da capacidade de Damasco de administrar tensões étnicas, garantir a segurança dos prisioneiros do ISIS e manter a estabilidade das linhas vitais de energia e alimentação.
Como em uma partida de xadrez entre potências regionais e globais, as peças se moveram com rapidez e precisão aparente; resta agora observar se os alicerces dessa nova ordem serão suficientemente sólidos para evitar reações e rupturas futuras.





















