Greta Scarano celebra um momento que mais parece um salto do cenário para o espelho do nosso tempo: sua estreia na direção, La vita da grandi (também conhecido pelo título inglês Siblings), foi premiada nos European Film Awards — os EFA, o chamado Oscar europeu — na categoria de melhor diretora estreante. O filme, inspirado em uma história real, aborda o tema do autismo com delicadeza e humor, e Scarano fala sem filtros sobre a surpresa, os medos e a opção por um cinema que conversa com o público.
Em Berlim, a atriz transformada em diretora contou como viveu a cerimônia: procurou fotografar-se ao lado de Mads Mikkelsen — “antes não me sentia legítima, quando ganhei ganhei coragem” — mas perdeu o momento porque ele já havia saído. Ainda assim, recorda com carinho os elogios recebidos de nomes como Alice Rohrwacher e Toni Servillo. A vitória foi dupla: inesperada e transformadora. “Quando anunciaram Siblings senti um choque; já a indicação havia sido enorme”, disse ela, lembrando que o presidente dos EFA pediu que cada artista falasse na própria língua para celebrar a diversidade europeia, e ela optou por falar em italiano.
Scarano não idealiza a premiação como um espelho fiel do público: “Nos EFA vencem os autores. Depois, o box office diz outra coisa.” Com lucidez, ela aponta que o cinema vive um momento de dificuldade e perda de público — e cita, como exemplo de fenômeno popular, Checco Zalone, capaz de atingir audiências que normalmente não frequentam salas. Ainda assim, o seu próprio filme alcançou cerca de um milhão de euros em bilheteria na Itália, resultado que ela classifica como positivo, especialmente graças à participação de escolas e projetos educativos nas exibições.
Ao falar sobre as escolhas estéticas e éticas de La vita da grandi, Scarano é categórica: queria evitar o tom de vitimização. “Não dei a lição; fiz um filme comercial — no sentido bom do termo — e também generalista, que responde às minhas inclinações populares, não algo alla Rohrwacher.” É um reframe sensível: tratar a condição neurológica com leveza sem diluir sua complexidade, um equilíbrio que remete à semiótica do viral — comunicar sem virar simplificação.
O filme, resume ela, também percorre a trilha emocional do medo do fracasso. Scarano recorda provações profissionais: testes que não deram certo, uma experiência em Praga numa série internacional em que acreditava ter “chegado lá”, e até um episódio com Paolo Sorrentino durante as audições de La grande bellezza, quando o papel imaginado por ela (uma freira) acabou transformado em uma figura menor nas lembranças do protagonista. “Foi um sofrimento enorme; eu era muito jovem”, confessa.
Sobre a discussão levantada por Valeria Bruni Tedeschi em Berlim a respeito de assédios, Scarano afirma não ter sofrido abusos explícitos, mas lembra de um episódio desconcertante com um jovem diretor quando tinha 18 anos — ela fugiu, sem ter reagido com a frieza necessária naquele momento. “Naqueles anos havia uma condescendência masculina incômoda nos sets.”
A trajetória da atriz também passa pela televisão: projetou-se com Un posto al sole e teve experiências pop, como interpretar Ilary Blasi na série sobre Totti, Speravo de morì prima, em que se impressionou com a sagacidade e a ironia da personagem. Na vida pessoal e criativa, Scarano mantém hábitos que jogam luz sobre sua identidade multifacetada — “E continuo a suonare la batteria”, ela diz, lembrando que a música é um contraponto rítmico ao ofício cinematográfico.
Se há um fio narrativo que liga suas escolhas, é a busca por um cinema que fale de verdade ao público sem abdicar de complexidade — um exercício de reescrita do roteiro coletivo sobre representações e responsabilidade cultural. Ao transformar sua experiência em cena e em direção, Greta Scarano não só ganhou um prêmio; ofereceu um reframe sobre como contar o autismo na tela, com humor e humanidade. É um pequeno triunfo que reverbera além da vitória: como um reflexo do nosso tempo, o filme convida a olhar, rir, e olhar de novo.






















