Em uma noite que pareceu um pequeno espetáculo à parte, Paolo Sorrentino, o diretor premiado com Oscar, encontrou-se com o público no Cinema Conca Verde, em Bergamo, por ocasião da exibição de seu mais recente filme, La grazia. O evento, ocorrido em 18 de janeiro de 2026, transformou a sala escura em um espaço de diálogo sobre memória, forma e as escolhas éticas que atravessam a obra do cineasta.
Mais do que uma simples sessão seguida de perguntas e respostas, o momento funcionou como um espelho do presente cultural: espectadores atentos buscavam pistas no roteiro e nas imagens, enquanto o diretor desenhava, com a calma de quem conhece o próprio ofício, os contornos do que seria o rosto daquela obra — uma espécie de reframe da realidade cinematográfica. Sorrentino não se limitou a explicar a narrativa; ele ofereceu uma leitura sensível do filme, mostrando como a estética e o tema se entrecruzam para produzir um eco cultural.
A conversa teve nuances de aula aberta e de conversa de café em Milão: análises sobre escolhas de enquadramento, a musicalidade dos silêncios e as referências visuais que percorrem o cinema europeu contemporâneo. O público, composto por cinéfilos locais e curiosos, participou com perguntas que iam da construção dos personagens às razões por trás do tom contemplativo do filme. Em vários momentos, o diretor evocou elementos da memória coletiva e da tradição cinematográfica italiana, sugerindo que La grazia dialoga com um roteiro oculto da sociedade contemporânea.
Fotografias do encontro, assinadas por Tiziano Manzoni / LaPresse, registraram a intensidade do diálogo e a atenção mútua entre artista e plateia. Para além do brilho das câmeras, ficou a sensação de que essas conversas públicas são fundamentais para o circuito cultural: funcionam como uma calibragem da recepção, um termômetro do que o público deseja ver e compreender nas telas.
Enquanto se movimenta entre festivais e salas de exibição, Sorrentino reafirma seu papel como um criador que transforma inquietação estética em narrativa humana. O encontro no Cinema Conca Verde foi, portanto, mais do que um evento promocional: foi um momento de reflexão coletiva sobre o lugar do cinema no tempo presente — uma pequena comunhão onde a arte volta a se apresentar como espelho do nosso tempo.
Para quem acompanhou, a sensação foi a de ter assistido a uma masterclass improvisada: o cineasta confirmou suas escolhas autorais, mas também escutou e foi atravessado pelas leituras alheias. Em uma era de conselhos rápidos e virais efêmeros, ver um diretor conversar com sua plateia é um lembrete de que o cinema permanece um espaço de tradição, debate e reinvenção.






















