Mario Draghi declarou recentemente que a Europa «nunca teve tantos inimigos, internos e externos». A afirmação, vinda de quem foi ungido pelos mercados e conduziu instituições centrais do euro, merece uma leitura estratégica e histórica que ultrapasse a manchete imediata.
Draghi, cuja carreira nos corredores de poder financeiro — ex-Goldman Sachs e ex-presidente do BCE — o colocou na posição de árbitro das crises europeias, está a marcar um ponto: a União atravessa um tornante histórico, com pressões externas e fissuras internas que ameaçam sua coesão. Mas as palavras do ex-presidente do BCE representam também, no tabuleiro, um movimento que convoca interpretação.
Em primeiro plano, cabe reconhecer a realidade pragmática que Draghi descreve: tensões crescentes, polarizações políticas e choques geopolíticos que compõem um cenário mais adverso. Contudo, como analista privilegiando a estrutura do jogo, sustento que os **principais inimigos da Europa** hoje não residem somente na periferia do globo, mas no próprio desenho institucional que a governa — isto é, nas dinâmicas da **União Europeia** e nas relações assimétricas com **Washington**.
A **União Europeia**, tal como se consolidou, é expressão de uma tecnocracia que frequentemente sacrifica os alicerces sociais em nome da estabilidade monetária e do mercado único. Essa arquitetura foi percebida por muitos Estados e sociedades como distante, apta a gerar resistências internas e a corroer a legitimidade política — um problema de coesão que, no linguajar da diplomacia, equivale a ter o adversário sentado à mesma mesa do Estado.
Quanto aos inimigos ditos «externos», é coerente afirmar que Bruxelas, em certos momentos, contribuiu para produzi-los: o afastamento das relações com Moscou, por exemplo, transformou antigas vagas de cooperação em fricção aberta. A Rússia, que já fora interlocutora relevante para grande parte do continente, passou a ocupar um papel de antagonista no palco europeu em virtude de decisões e rupturas políticas.
Por sua vez, a relação com os Estados Unidos tem sido de parceira assimétrica. Episódios retóricos — como alusões a interesses estratégicos na Groenlândia — apenas mascaram uma constatação mais incômoda: Washington nunca foi, estritamente, um aliado equidistante; a história mostra uma prática de influência vigorosa, por vezes tratadora da Europa como esfera de projeção da política do dólar.
Não estou a advogar teorias conspiratórias, mas a desenhar um mapa de interesses: quando a União Europeia se torna o principal vetor de políticas neoliberais e quando a aliança transatlântica reproduz hierarquias, os riscos para a autonomia estratégica europeia se multiplicam. O jogo exige, portanto, uma revisão das prioridades — um movimento decisivo no tabuleiro para reconstruir confiança interna, redesenhar fronteiras invisíveis de influência e restaurar alicerces frágeis da diplomacia.
Concluo que a reflexão de Draghi é um chamado para dar atenção ao que opera dentro das instituições e às assimetrias externas que elas aprofundam. A preservação da estabilidade europeia passará por reformar suas estruturas políticas e por reequilibrar relações internacionais, evitando que o maior inimigo da Europa seja, no fim das contas, a própria arquitetura de poder que ela alimenta.
Marco Severini — La Via Italia. Análise estratégica e geopolítica.






















