MILÃO — Em frente ao Consulado da República Islâmica do Irã, a imagem inquietante de uma estilização do nome Allah ricada em vermelho domina por alguns instantes. A cena é logo substituída por tricolores vibrantes com um leão ao centro — a bandeira que muitos iranianos no exterior adotaram como símbolo de resistência.
Fui à Manifestação por um Irã livre convocada pela Associazione Italia-Iran para ouvir a voz de quem vive a repressão à distância. A mobilização atraiu moradores persas residentes na Itália e ativistas; entre os organizadores estavam Mariofilippo Carpiano di Brambilla, presidente da associação, e Mojedeh Karimi, vice-presidente e porta-voz iraniana do protesto.
Apuração in loco e cruzamento de fontes mostram um quadro humano simples e direto: muitos participantes são jovens — estudantes que chegaram à Itália nos últimos anos — com o rosto coberto ou óculos escuros. Não é postura estética: é proteção. Eles sabem que manifestar-se no exterior pode colocar em risco parentes que ainda vivem no Irã. A regra é clara para quem acompanha os fatos brutos: identificação pública pode equivaler a sentença indireta para familiares.
O que se viu foi mistura de dor e indignação. Relatos e testemunhos, alguns transmitidos por telefone e vídeo, trouxeram ao público imagens terríveis: prisões e violência que, segundo ativistas e organizações de direitos humanos, têm custado a vida a centenas — e, segundo outros relatos, a milhares — de manifestantes no território iraniano. Esse dado, mesmo em variação nas fontes, compõe o raio-x da atual repressão que motiva a diáspora.
Entre gritos e batidas de pés no chão, a manifestação expôs também um traço menos reconhecido pela cobertura ocidental: o orgulho de uma identidade persa que antecede e resiste à narrativa teocrática. Muitos carregavam lembranças de lares e sabores — o ghormeh sabzi, o fesenjān de romã e nozes, o arroz ao açafrão — sinalizando que a luta política se mistura a um laço cultural profundo.
Desde a revolução de 1979, a imagem internacional do Teerã foi progressivamente reduzida a lentes religiosas e securitárias. Para entender a atual onda de protestos é preciso resgatar o quadro histórico: o Irã moderno não nasceu integralmente teocrático; há camadas históricas, culturais e políticas que continuam a alimentar a resistência interna e externa.
Do ponto de vista prático, a organização italiana enfrenta desafios logísticos e de segurança. A estratégia adotada é clara: dar visibilidade aos fatos sem expor os nomes daqueles que correm risco direto. Há cruzamento de fontes entre ativistas na Itália e redes familiares no Irã para verificar ocorrências e evitar danos colaterais.
Observando a cena em Milão fica evidente outra linha de análise: a distância entre a atenção pública ocidental e a intensidade da repressão. Não se trata apenas de cobertura midiática, mas de respostas diplomáticas e políticas que, segundo participantes da manifestação, ainda permanecem aquém da gravidade da situação.
Relatório em trânsito, contatos verificados e imagens colhidas no local indicam que a mobilização da diáspora é parte de um movimento mais amplo, que combina protestos internos no Irã com iniciativas internacionais. A narrativa precisa ser limpa de ruídos: atrás dos símbolos há vidas, famílias e estratégias de sobrevivência.
Apuração concluída em Milão. Seguirei acompanhando as repercussões e os desdobramentos com cruzamento contínuo de fontes e verificação documental.
Giulliano Martini — apuração in loco, cruzamento de fontes, La Via Italia.






















