Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, ainda que provisoriamente, linhas de influência no Oriente Médio, o presidente americano Donald Trump articula um novo Conselho de Paz para a Faixa de Gaza. A iniciativa, apresentada como uma plataforma para coordenação da reconstrução e da estabilidade regional após dois anos de conflito, congrega líderes com perfis políticos distintos — de Giorgia Meloni e Viktor Orbán até Recep Tayyip Erdogan e Luiz Inácio Lula da Silva — numa tentativa de criar um arquétipo diplomático capaz de superar a fragmentação tradicional da arena.
No terreno, entretanto, a trégua permanece delicada. As Forças de Defesa de Israel (IDF) anunciaram, durante a noite, uma operação antiterrorismo de larga escala em Hebron, na Cisjordânia. Segundo relatos do The Times of Israel, o objetivo do raid no bairro de Jabal Johar é desarticular infraestruturas terroristas, confiscar armas ilegais e reforçar a segurança local. O exército afirmou que a ação deverá se prolongar por vários dias, um lembrete de que a calma formal não eliminou pontos de tensão capazes de reacender o conflito.
Paralelamente, um desdobramento significativo ocorreu no teatro sírio. O presidente sírio Ahmed al-Sharaa e o líder das Forças Democráticas Sírias, Mazloum Abdi, rubricaram um acordo em 14 pontos para encerrar os combates no nordeste da Síria. Acordos como este estipulam cessar-fogo imediato, integração das milícias curdas e da administração local no aparelho estatal, o retorno ao controle central de regiões como Raqqa e Deir Ezzor, e a transferência para Damasco da gestão de prisioneiros do Estado Islâmico e dos acampamentos relacionados.
O pacote prevê ainda a retomada de infraestruturas estratégicas — como a barragem de Tabqa e os campos petrolíferos de Al-Omar — sob a autoridade do Estado. Analistas já apontam que, embora haja reconhecimento formal da identidade curda, o acordo configura um substancial redimensionamento do poder político curdo e um reposicionamento do Estado sírio na tectônica regional. Tom Barrack, enviado americano, classificou o pacto como um ponto de virada; o ministro da Energia, Mohammad al-Bashir, destacou o papel das receitas naturais para a reconstrução nacional.
No arquivo do novo Conselho de Paz para Gaza, constam nomes de peso político e financeiro: além de Meloni e Orbán, participam Narendra Modi, Edi Rama, Javier Milei, Abdel Fattah al-Sisi, Abdallah II da Jordânia, e figuras do establishment anglo-americano como Marco Rubio, Jared Kushner e Tony Blair. Um comitê palestino de governança, presidido pelo ex-vice-ministro Ali Shaath, e um conselho executivo consultivo foram igualmente previstos. Fontes citam que o movimento busca criar estruturas de financiamento e coordenação que possam sustentar uma “fase dois” da trégua e da reconstrução.
Em paralelo às negociações, representantes do Hamas teriam declarado estar “prontos a ceder o governo” como parte de um arranjo político que favoreça a estabilização. Tal enunciado, se confirmado em termos operacionais, seria um movimento decisivo no tabuleiro — um sacrifício de poder institucional por espaço político e garantias internacionais.
Do ponto de vista estratégico, o cenário atual revela alicerces ainda frágeis: a diplomacia ativa tenta transformar armistícios locais em estruturas duráveis, enquanto operações militares e acordos de reintegração territorial demonstram que o processo é, antes de tudo, um jogo de paciência e cálculo. O desafio será traduzir promessas de reconstrução em garantias reais de segurança e inclusão, evitando que a nova arquitetura se torne apenas uma fachada sobre velhas rivalidades.






















