Por Marco Severini — Em um movimento trágico e abrupto no tabuleiro ferroviário da Península Ibérica, dois trens colidiram na noite passada perto de Adamuz, na província de Córdoba, resultando em pelo menos 39 mortos e dezenas de feridos. O acidente envolve um comboio de alta velocidade operado pela Iryo, proveniente de Málaga, e um trem da Renfe que se dirigia a Huelva. A sequência dos fatos e os primeiros elementos técnicos apontam para falha de infraestrutura como hipótese central de investigação.
O trem privado da Iryo partiu de Málaga às 18h40 e seguia para a estação de Atocha, em Madrid. Há relatos iniciais que indicavam 317 passageiros a bordo; a própria operadora informou posteriormente que, no momento da partida, havia 289 passageiros, 4 tripulantes e 1 maquinista. Por volta das 19h45, por razões ainda não esclarecidas, o comboio desviou e os últimos três vagões descarrilaram, invadindo a linha paralela onde transitava o trem da Renfe. O impacto provocou o descarrilamento também deste segundo convoglio.
Equipes de emergência e autoridades locais confirmaram, até o momento, 152 feridos. Destes, 24 estão em condições graves e 5 em estado muito grave, segundo informações da Guardia Civil. As operações de socorro e identificação das vítimas permanecem em andamento. As autoridades regionais da Andaluzia e o governo central mobilizaram-se rapidamente: o presidente da Junta, Juan Manuel Moreno, deslocou-se ao local, e o primeiro-ministro Pedro Sánchez cancelou compromissos oficiais previstos para a segunda-feira.
Do ponto de vista técnico, uma linha de investigação privilegiada relata que um junta de via teria saltado antes do incidente, gerando um espaço entre duas seções de trilhos que se ampliou progressivamente com a passagem dos vagões. A hipótese é que as primeiras composições transitaram pelo ponto defeituoso à medida que a fresta aumentava, até que, na oitava Wagen, ocorreu o descarrilamento que arrastou também a sexta e a sétima carroça. Técnicos espanhóis trabalham para confirmar esta sequência, examinando vestígios no local e dados de manutenção.
A Iryo informou que o trem envolvido foi fabricado em 2022 e que sua última inspeção havia sido realizada em 15 de janeiro. A investigação judicial foi atribuída a um tribunal de Montoro; o ministro dos Transportes, Óscar Puente, qualificou o acidente como “raro e de difícil explicação”, sobretudo porque o trecho onde ocorreu é reto, sem curvas que normalmente contribuam para incidentes dessa natureza.
Do ponto de vista diplomático, o ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, acompanha a evolução do caso e a Farnesina comunica que, até então, não há registo de cidadãos italianos entre as vítimas. O Cônsul-Geral em Madrid encontra-se no local para prestar assistência. Foram disponibilizados números de contato para emergências: Consolato +34 629 842 287 e Unidade de Tutela da Farnesina +39 06 36225.
Este episódio pode ser interpretado, em termos estratégicos, como um choque nas estruturas que sustentam a mobilidade e a confiança pública: um movimento violento que expõe alicerces frágeis da diplomacia de transporte e a necessidade de um redesenho profilático das rotas e dos procedimentos. Ao mesmo tempo, impõe-se a cautela no jogo investigativo — cada peça do tabuleiro técnico precisa ser examinada com a precisão de um final de partida de xadrez, porque a reconstrução da verdade dependerá da sequência correta de provas e da coordenação entre autoridades operacionais e judiciais.
As autoridades hospitalares continuam a receber feridos e haverá atualizações sobre números de vítimas e sobre eventuais responsáveis técnicos ou operacionais à medida que os inquéritos avançarem. A prioridade imediata permanece no socorro às vítimas, identificação dos mortos e apuração das causas para evitar que um novo movimento inesperado no tabuleiro ferroviário gere mais perda de vidas.




















