Por Stella Ferrari — A nova escalada de tensão comercial entre os Estados Unidos e a Europa, motivada pelas disputas em torno da Groenlândia, colocou em marcha uma brusca retracção do apetite por risco nos mercados globais. A ameaça de tarifas de até 25% por parte de Washington contra países europeus que enviaram tropas à ilha e a resposta anunciada da União Europeia com contramedidas avaliadas em 93 bilhões de euros atuaram como freios sobre o sentimento dos investidores.
Na abertura desta sessão, as bolsas europeias registraram quedas generalizadas: Milão, Frankfurt e Paris caíram mais de 1,2%, enquanto Madrid recuou 0,5% e Londres 0,2%. Os futuros de Wall Street também apontavam para perdas expressivas, embora os mercados americanos permanecessem fechados hoje pela celebração do Martin Luther King.
Em um movimento coordenado entre aversão ao risco e busca por portos seguros, grande parte das praças asiáticas operou no vermelho. A exceção foi Seul, que saltou 1,32%, sustentada pelo desempenho do papel da Hyundai, impulsionado pelas expectativas positivas em projetos de robótica e inteligência artificial. As bolsas chinesas mostraram comportamento misto: Xangai avançou 0,29% e Hong Kong retrocedeu 1,17%, ambos reduzindo perdas após a divulgação de que o PIB da China alcançou a meta governamental de 5% em 2025.
Com a propensão ao risco em queda, o mercado direcionou fluxos para ativos de proteção. O ouro, clássico porto seguro, atingiu um recorde histórico, superando a marca de 4.670 dólares por onça. Esse movimento reflete a combinação entre choque geopolítico, incerteza sobre políticas comerciais e uma recalibragem das expectativas macroeconômicas — como se o motor da economia global sentisse uma brusca mudança de marcha: menos aceleração, mais cautela.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de uma situação que exige leitura fina: a ameaça de tarifas funciona como um “ajuste de freio” sobre cadeias de valor e confiança entre mercados; as retaliações de grande monta por parte da UE representam um tipo de calibragem política destinada a preservar capacidades industriais e posições diplomáticas. Para investidores, a lição é clara: em ambientes onde o design de políticas se torna imprevisível, alocação disciplinada e instrumentos de proteção — ouro, moedas fortes, e posições defensivas em liquidez — assumem papel central.
Em resumo, a disputa pela Groenlândia serviu como catalisador para uma sessão negativa nas praças europeias e volatilidade global, enquanto ativos de refúgio encontram nova demanda. A economia global, tal como um automóvel de alta performance, está em fase de recalibração — exigindo do gestor e do investidor nervos firmes e escolhas técnicas bem calibradas.






















