Por Aurora Bellini, La Via Italia — À medida que buscamos redução de emissões e um horizonte límpido, surge uma contradição sutil: políticas ambiciosas que visam transformar estilos de vida podem, inadvertidamente, corroer os próprios valores ambientais que pretendem cultivar. Um novo estudo publicado em Nature Sustainability lança luz sobre esse risco e nos convida a repensar como políticas climáticas interagem com comportamentos e crenças sociais.
O IPCC já indicou que mudanças nos estilos de vida poderiam ajudar o planeta a cortar emissões em até 70% até 2050 — uma promessa que ilumina caminhos possíveis para o nosso futuro coletivo. Mas os autores da pesquisa, que entrevistaram mais de 3.000 cidadãos representativos na Alemanha, alertam que medidas mal calibradas — pedir para comer menos carne, proibir carros nos centros urbanos ou limitar viagens aéreas — podem desencadear o chamado efeito de deslocamento (crowding-out), enfraquecendo a propensão das pessoas a agir em favor do meio ambiente.
O estudo constatou que obrigações bem-intencionadas, quando percebidas como autoritárias ou invasivas, podem reduzir a motivação pré-existente daqueles que já adotam comportamentos sustentáveis — como usar bicicleta, transporte público ou gerir melhor o aquecimento doméstico. Em vez de semear mudanças, essas medidas podem provocar resistência: a aversão ao controle às vezes supera o compromisso prévio com práticas verdes.
Os pesquisadores identificaram uma resposta negativa 52% maior a obrigações climáticas do que a medidas comparáveis na área da COVID-19 — um dado que sinaliza quão sensível é o território da ação climática. La Via Italia relata as reflexões do economista Sam Bowles, coautor do estudo: “A ciência e a tecnologia para oferecer um estilo de vida de baixas emissões estão quase prontas, mas falta uma ciência socio-comportamental de políticas climáticas eficazes e politicamente viáveis.”
Há, no entanto, pontos de luz. A resistência diminuiu entre aqueles que acreditavam que a medida era eficaz, que não restringia escolhas fundamentais e que respeitava a privacidade e a integridade física. A economista comportamental Katrin Schmelz, autora principal, observou a menor oposição às limitações de voos de curta distância na Alemanha — possivelmente porque a ampla malha ferroviária europeia oferece alternativas reais, iluminando novos caminhos para a mobilidade sustentável.
Esses achados nos lembram que políticas bem-sucedidas não se resumem a proibições ou slogans; demandam um desenho sensível ao contexto social, capazes de semear inovação e tecer acordos que ampliem a liberdade de escolha sustentável. Em vez de impor, é preciso cultivar opções viáveis: investir em infraestrutura ferroviária, ampliar transporte público, criar incentivos para dietas com menor pegada e envolver comunidades no processo decisório.
Na prática, isso significa privilegiar medidas que amplifiquem a agência individual e o senso de pertencimento — políticas que iluminem novos caminhos em vez de fechar portas. A transição rumo à neutralidade climática pedirá técnica, tecnologia e, sobretudo, sensibilidade humana. Se quisermos transformar hábitos sem desbotar valores, é preciso construir pontes entre ciência, política e vida cotidiana — sem perder de vista que cada mudança real começa por cultivar confiança.
Em suma, mais do que regular comportamentos, precisamos desenhar políticas que inspirem. Assim como um jardineiro prepara o solo antes de semear, as decisões públicas devem preparar o terreno social para que brotem práticas duradouras. É aí que reside a esperança: políticas que não apenas reduzam emissões, mas que elevem o espírito coletivo e deixem um legado iluminado para as próximas gerações.






















