As mudanças climáticas e a abertura do Canal de Suez têm acendido sinais de alerta no Mar Mediterrâneo: a chegada e a proliferação de espécies alienígenas marinhas modificam ecossistemas e desafiam práticas tradicionais de pesca. Entre os invasores mais comentados estão o peixe-coelho e o peixe-leão, ambos portadores de espinhos venenosos que preocupam pescadores e cientistas.
Em conversas com a equipe da La Via Italia, pescadores locais descrevem o impacto direto dessas espécies sobre a fauna nativa. “O peixe-leão apareceu depois do peixe-coelho e é perigoso para a biodiversidade porque se alimenta dos filhotes. Não deixa nada e se multiplica porque não tem predadores naturais na região”, diz o pescador Fotis Gaitanos, que acompanha há anos a dinâmica das espécies na costa.
Enquanto para o peixe-coelho ainda não se encontrou solução efetiva — salvo medidas de apoio econômico para sua remoção — em Chipre uma resposta prática vem ganhando força: transformar o problema em oportunidade. Restaurantes cipriotas, após um rigoroso processo de retirada das espinhas venenosas, passaram a servir o peixe-leão como prato refinado e demandado por clientes que procuram sabores locais e sustentáveis.
O aproveitamento culinário, porém, exige técnica e responsabilidade. “Antes de tudo, deve ser limpo; é muito perigoso”, alerta o restaurateur Stefanos Mentonis, da Stefanos Fish Tavern, em depoimento à La Via Italia. Ele explica que, embora um eventual ferimento por espinho dificilmente seja letal, pode causar dores intensas e reações agudas. “Se o peixe é comprado sem ter sido cuidadosamente limpo, há risco. É fundamental retirar as espinhas porque são tóxicas”, completa.
Além da experiência prática em restaurantes, ações científicas e campanhas de monitoramento ampliam a resposta ao fenômeno. O Instituto Superior para a Proteção e Pesquisa Ambiental (ISPRa) e o Instituto para Recursos Biológicos e Biotecnologias Marinhas do Conselho Nacional de Pesquisa de Ancona (CNR-Irbim), em parceria com o projeto AlienFish, retomaram a campanha “Attenti a quei 4!” oferecendo orientações para identificar as espécies alienígenas presentes nas águas italianas. A iniciativa incentiva a documentação por meio de fotos e vídeos e a submissão das observações via link do projeto, contribuindo para o mapeamento e o controle de sua difusão.
Essa abordagem multifacetada — que combina vigilância científica, apoio à pesca local e inovação gastronômica — revela um caminho prático de adaptação: ao mesmo tempo em que ilumina soluções econômicas para comunidades costeiras, também evidencia a necessidade de cautela e regulamentação. Como curadora de progresso na La Via Italia, vejo neste movimento um exemplo de como semear inovação pode proteger recursos e cultivar valores: transformar uma ameaça em oportunidade requer técnica, ética e cooperação entre pescadores, chefs e pesquisadores.
Se você avistar um exemplar em águas mediterrâneas, registre com foto ou vídeo e envie a observação aos canais do projeto AlienFish. Documentação cuidadosa é luz para a ciência e para o futuro das nossas águas.






















