No limiar do novo ano, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, renovou um apelo urgente para colocar pessoas e planeta no centro das decisões globais, lembrando que vivemos cercados por “caos e incerteza”. Em sua mensagem, ele destacou números que iluminam um desequilíbrio preocupante: a despesa militar global atingiu 2,7 trilhões de dólares (cerca de 2,3 trilhões de euros) no último ano e, se as tendências atuais persistirem, poderá mais do que dobrar, chegando a 6,6 trilhões de dólares (aprox. 5,63 trilhões de euros) até 2035.
Ao apresentar essas estatísticas, Guterres lembrou que os recursos existem para melhorar a vida das pessoas, preservar o planeta e garantir um futuro de paz e justiça. Em setembro, a pedido dos Estados-membros, o secretário-geral trouxe à luz o relatório “The true cost of peace”, que evidencia um forte desequilíbrio nos gastos globais: enquanto crescem os orçamentos para armamentos, faltam investimentos essenciais em adaptação climática, saúde, educação e infraestrutura sustentável.
O documento revela dados que convidam à reflexão e à ação imediata. Bastaria redirecionar apenas 15% da despesa militar global para cobrir os custos anuais de adaptação às mudanças climáticas em países em desenvolvimento. Além disso, a conversão de prioridades econômicas mostra-se favorável ao futuro: 1 bilhão de dólares (cerca de 852 milhões de euros) gastos em defesa gera aproximadamente 11.200 empregos; o mesmo montante aplicados em energia limpa criaria 16.800 vagas, em educação 26.700 e na saúde 17.200 — escolhas que semeiam prosperidade e resiliência.
Outros números ressaltam a urgência moral e prática. Menos de 4% dos 2,7 trilhões de dólares seria suficiente, a cada ano, para erradicar a fome global até 2030; pouco mais de 10% poderia vacinar integralmente todas as crianças do planeta. A análise também chama atenção para o papel das guerras como um dos maiores poluentes: além do consumo direto de combustíveis por aviões e blindados, a reconstrução pós-conflito e as operações militares elevam fortemente as emissões.
Grupos como The War On Climate estimam, por exemplo, que o conflito entre Israel e Gaza teria provocado 32,2 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 15 meses. Estudos de 2022, realizados por organizações como Scientists for Global Responsibility e Conflict and Environment Observatory, atribuem aos aparelhos militares cerca de 5,5% das emissões globais de gases de efeito estufa — e, ainda assim, as forças armadas permanecem em grande parte fora das obrigações de reporte climático. A União Europeia, em especial, não contabiliza cerca de 82% das emissões vinculadas às suas atividades militares.
Como curadora de progresso, vejo nessa situação uma encruzilhada: podemos continuar a permitir que o brilho efêmero do investimento em guerra ofusque o trabalho paciente de construir futuro, ou podemos investir na paz e transformar gastos em oportunidades de regeneração. Iluminar novos caminhos passa por exigir transparência, incluir as emissões militares nas contas climáticas internacionais e redirecionar verbas para setores que geram empregos e bem-estar duradouros.
O apelo de Guterres para que líderes mundiais ‘escolham as pessoas e o planeta, não a dor’ é também um convite para que empresas, fundações e cidadãos iluminem novas rotas de ação: políticas públicas que privilegiem a adaptação climática e a justiça social; investimentos em tecnologia limpa e educação; diplomacia preventiva que reduza risco e reconstrução sustentável que minimize emissões. Semear inovação é, afinal, semear paz.
Ao encerrar o ano, a comunidade global tem diante de si uma escolha clara. É tempo de alinhar recursos, ética e visão. Que em 2026 possamos, juntos, levantar um horizonte límpido — construindo pontes onde hoje há trincheiras e plantando oportunidades onde hoje há desperdício. A La Via Italia seguirá iluminando esses caminhos, celebrando soluções reais e o legado de uma humanidade que escolhe cuidar do seu próprio lar.






















