Na Itália, estima-se que ocorram mais de 250 casos de morte súbita infantil a cada ano. Sem um registro nacional consolidado e sem uma rede uniforme de acolhimento às famílias afetadas em todo o território, a prevenção permanece hoje como a ferramenta mais eficaz para reduzir essas tragédias silenciosas.
Foi com essa urgência — e com a serenidade de quem cuida — que a associação italiana Semi per la Sids, em parceria com a Società Italiana di Neonatologia, reafirmou diante da Comissão de Assuntos Sociais da Câmara dos Deputados a necessidade de combinar informação qualificada sobre higiene do sono dos recém-nascidos com intervenções estruturadas de suporte psicológico e administrativo às famílias enlutadas.
Durante a audiência, que integrou o exame de propostas de lei voltadas à introdução da obrigação de diagnóstico autóptico em casos de morte súbita infantil, Allegra Bonomi, presidente da Semi per la Sids, sublinhou a importância de uma norma que promova continuidade e uniformidade: “Aspiramos que as propostas de lei garantam continuidade normativa ao tema da morte em berço e introduzam a obrigatoriedade da autópsia padronizada em todas as regiões, assegurando um apoio estruturado aos pais atingidos”, declarou Bonomi.
A proposta é nutrida por uma visão que mistura ciência, cuidado e dignidade: a autópsia padronizada não é apenas um ato técnico, mas um instrumento para fornecer respostas, prevenir futuros episódios e organizar políticas públicas baseadas em evidências. Sem esse mapa nacional, diz a associação, cada região fica sozinha a costurar protocolos distintos — um mosaico desigual que reduz a eficácia das medidas de prevenção e do acompanhamento das famílias.
Em paralelo às ações institucionais, projetos comunitários mostram-se fundamentais. Graças ao programa “Sopravvivere si può”, promovido por Semi per la Sids, 818 pais em luto conseguiram acessar gratuitamente percursos de apoio — atendimento psicológico, grupos de escuta e orientação administrativa — uma verdadeira mão estendida para atravessar o inverno do luto. Essas iniciativas traduzem o que chamo de “respiração da comunidade”: um ciclo de cuidado que ajuda a transformar dor em memória e aprendizado.
Para além das normas e dos números, permanecem práticas simples e eficazes de prevenção que toda família e profissional de saúde devem conhecer e difundir: colocação do bebê de costas para dormir, superfície firme e sem objetos soltos no berço, ambiente não excessivamente aquecido, evitar fumo no domicílio e atenção a sinais de risco. A higiene do sono é, muitas vezes, a primeira linha de defesa — uma pequena colheita de hábitos que pode salvar vidas.
Na minha observação como cronista atento aos ritmos da vida cotidiana, o que este debate revela é a necessidade de alinhar política, ciência e compaixão. A obrigatoriedade de uma autópsia padronizada pode ser a raiz institucional que permitirá plantar melhores práticas de prevenção e um acolhimento uniforme para quem vive a perda.
Enquanto aguardamos avanços legislativos e a criação de um registro nacional que ilumine as causas e direcione políticas, cabe a todos nós — profissionais de saúde, instituições e comunidades — cultivar a informação e o suporte. A morte súbita infantil é um inverno que atinge famílias; nossa responsabilidade é criar instrumentos e redes que favoreçam o despertar da paisagem para um amanhã mais seguro.




















