Por Alessandro Vittorio Romano — Em uma intervenção que parece tirada das batidas irregulares de um drama clínico, a equipe de emergência do hospital Molinette, em Turim, devolveu a vida a Andrea, um radiologista de 47 anos cujo coração ficou parado por um dia. A técnica decisiva foi a ECMO — oxigenação por circulação extracorpórea — que permitiu ao corpo ganhar tempo suficiente para a recuperação sem provocar danos cerebrais.
Quando falamos de medicina de ponta, gosto de pensar na prática como uma colheita: há momentos em que ocorrem tempestades inesperadas, e o que resta é proteger as raízes para que a planta volte a brotar. Foi isso que ocorreu nos corredores da Reanimação de pronto socorro dirigida pela Drª Marinella Zanierato. Em casos de parada cardíaca que não respondem às manobras convencionais, a sobrevida costuma ser inferior a 10%. A chegada da ECMO, porém, pode elevar essa probabilidade para cerca de 50% — um salto que, para Andrea, significou a diferença entre a vida e a perda definitiva.
Andrea conta, do leito de reabilitação, que tudo começou em 25 de outubro, numa manhã em que atendia a um episódio com seu pai. Em um instante, sua vida virou um silêncio que a medicina precisou quebrar com ciência e sensibilidade. “Foi fundamental, caso contrário eu estaria morto — não conseguiam fazer o coração voltar”, disse ele, descrevendo como a máquina permitiu que o órgão “calmasse” por um período e se reorganizasse.
“A ECMO deu a possibilidade ao coração de se acalmar, de parar um momento e de se ajustar”, relatou Andrea.
A ECMO funciona como uma respiração mecânica do corpo inteiro: é uma circulação extracorpórea que assume temporariamente as funções do coração e dos pulmões, mantendo o fornecimento de oxigênio ao organismo enquanto a equipe médica trata a causa subjacente da falha cardíaca. Não se trata de uma solução permanente, mas de um sopro emprestado — uma pausa que permite à biologia recuperar seus ritmos naturais.
Na prática, decisões assim exigem tanta técnica quanto delicadeza. A equipe das Molinette mostrou como a sinergia entre rapidez, experiência e tecnologia pode transformar um cenário sombrio em janela de esperança. Hoje Andrea recupera-se sem sequelas neurológicas aparentes, o que é, nas palavras dele, “o melhor que poderia acontecer”.
Como observador atento do dia a dia, percebo que histórias como essa nos lembram da fragilidade e da força que coexistem dentro do corpo humano. O inverno da emergência pode ser rigoroso, mas com as ferramentas certas — e mãos preparadas — é possível esperar pelo despertar da paisagem interna do paciente.
Este caso também é um convite à reflexão sobre os investimentos em tecnologias críticas e treinamento: a possibilidade de transformar probabilidades depende não apenas das máquinas, mas da capacidade de quem as opera. Para quem acompanha o desenrolar da saúde pública e do conhecimento médico, há uma lição clara: acolher a complexidade com coragem e poesia prática.
Andrea segue em processo de reabilitação, cercado de familiares e colaboradores que acompanharam cada batida devolvida. A cidade respira de novo, e a pequena vitória dá um novo sentido ao ritmo cotidiano — como se a própria Turim tivesse retomado sua respiração depois de uma tempestade.

















