Ciao, sou Erica Santini, e trago uma história de inverno que cheira a metal frio e café quente — daqueles que aquecem a alma enquanto o vento uiva lá fora. Na semana passada, milhares de viajantes ficaram retidos no norte da Finlândia depois que voos no aeroporto de Kittilä foram cancelados por causa do frio extremo. Surpreende, porque este é um país treinado para o inverno — e, ainda assim, algo travou as engrenagens do deslocamento aéreo.
O que se tornou claro é que paralisar operações aéreas é muito mais complexo do que simplesmente limpar pistas de neve e gelo. Especialistas em aviação lembram que manter as aeronaves em solo seguro envolve uma coreografia de logística, equipamentos e pessoas — uma orquestra que precisa tocar no tempo certo para que cada avião possa decolar.
Na Finlândia, quedas bruscas de temperatura e nevões são rotina no inverno, por isso os aeroportos contam com programas de manutenção meticulosos. No Aeroporto de Helsínquia, por exemplo, a remoção direcionada de neve é rotina diária. Como explica Anssi Väisänen, gestor de operações de plataforma da Finavia em Helsínquia, o plano de estacionamento das aeronaves é preparado cerca de 12 horas antes dos movimentos, deixando várias posições livres lado a lado. Isso permite concentrar recursos e limpar áreas maiores de uma só vez, reduzindo o tempo de inatividade.
As posições de estacionamento são liberadas por secções: uma estratégia que ajuda as equipas a varrer e limpar o máximo possível, com menos trânsito de veículos e mais segurança. Além disso, as pistas e as vias de circulação têm de estar imaculadas. Em Helsínquia, há uma frota de cerca de 200 veículos — dos limpa-neves aos pulverizadores de químicos — preparada para cuidar das três pistas do aeroporto.
Os gigantes dessa frota são os varredores-sopradores Vammas PSB 5500. Essas máquinas de 31 toneladas podem limpar uma faixa de 5,5 metros em apenas 11 minutos, graças a um desenho e combinação de funções pensadas para remover neve com eficácia. Como conta Pyry Pennanen, responsável pela manutenção do aeródromo da Finavia, os varredores-sopradores são utilizados até 800 horas durante a temporada de inverno.
Essa maquinaria é operada por 135 técnicos qualificados, dos quais 75 são recrutados exclusivamente para trabalhar durante os meses mais frios. A janela de limpeza para uma pista de 3.500 metros por 60 metros é de apenas 13 minutos — normalmente conseguem cumprir em 11 minutos, graças a agentes anticongelantes e padrões de varrimento ensaiados.
Enquanto uma pista está em manutenção, as outras duas permanecem operacionais. Mesmo aeroportos muito ao norte, além do Círculo Polar Ártico, raramente fecham por causa do tempo: no Aeroporto de Ivalo, por exemplo, as temperaturas atingiram -35ºC em 2023 e ainda assim foi cancelado apenas um voo. Isso nos lembra que a questão em Kittilä não foi — apenas — a neve, mas as múltiplas peças do puzzle operacional que, juntas, podem criar um efeito dominó.
Para nós, viajantes e amantes do Dolce Far Niente sob luzes nórdicas, fica a lição: o inverno finlandês é um espetáculo sensorial — com seus cheiros, texturas e silêncios —, mas por trás dessa beleza existe um trabalho logístico enorme. Quando as engrenagens falham, sentimos na pele o atraso, o frio e a espera. Andiamo, e que estas histórias nos façam mais pacientes e curiosos sobre o que acontece nos bastidores das nossas viagens.






















