Por Alessandro Vittorio Romano — Enquanto percorremos os corredores das mercearias, entre texturas e cores que prometem praticidade, muitas vezes deixamos de reparar nas pequenas linhas que parecem códigos e siglas nas etiquetas. Nessa escrita miúda podem estar escondidos conservantes alimentares que, segundo dois estudos recentes publicados em Nature Communications e BMJ, associam-se a um aumento do risco de câncer e de diabetes tipo 2 quando o consumo é prolongado.
Os pesquisadores analisaram dados de mais de 100.000 participantes franceses do estudo NutriNet-Santé, com informações de dieta e saúde entre 2009 e 2023. O objetivo foi mapear até que ponto a exposição a aditivos presentes em muitos produtos — especialmente nos alimentos ultraprocessados — está ligada a condições crônicas que moldam nossa paisagem corporal ao longo do tempo.
Foram investigados 17 aditivos individualmente. No estudo sobre câncer publicado no BMJ, 11 deles não mostraram associação direta com a incidência geral da doença. Ainda assim, os consumidores mais expostos a diferentes conservantes apresentaram, coletivamente, maior probabilidade de desenvolver tumores do que aqueles com consumo baixo ou inexistente. Alguns exemplos apontados pelos autores:
- Sorbato de potássio: associado a um aumento de 14% no risco de câncer em geral e 26% no risco de câncer de mama;
- Sulfitos: ligados a um acréscimo de 12% no risco de câncer em geral;
- Nitrito de sódio: associado a 32% a mais no risco de câncer de próstata;
- Nitrato de potássio: aumento de 13% no risco de câncer em geral e 22% no risco de câncer de mama;
- Acetatos totais: associados a 15% a mais no risco de câncer em geral e 25% no risco de câncer de mama; e o ácido acético com aumento de 12% no risco de câncer em geral.
Os autores ressaltam que, apesar da necessidade de aprofundamento, há um padrão que não pode ser ignorado: muitos desses compostos parecem interferir em vias imunológicas e inflamatórias, pequenos ventos que, com o tempo, podem semear problemas maiores — como o crescimento tumoral. Estudos laboratoriais anteriores já haviam mostrado que certos conservantes podem danificar células e até o DNA, mas a força destes novos trabalhos está em conectar sinais experimentais à realidade de populações humanas ao longo de anos.
O outro estudo, publicado em Nature Communications, também aponta para associações preocupantes entre a exposição a aditivos e o desenvolvimento de diabetes tipo 2, reforçando a ideia de que a nossa alimentação deixa rastros no corpo, como anéis de crescimento em uma árvore que contam histórias de hábitos, estações e escolhas.
Trata‑se, lembram os pesquisadores, de estudos observacionais: não provam causalidade definitiva, mas levantam indícios fortes que sugerem a necessidade de rever a regulação do uso de conservantes em alimentos industrializados e reforçar a proteção ao consumidor em escala global.
Enquanto políticas públicas e novas pesquisas não surgem, vale um gesto simples — e poderoso: ler rótulos com atenção. Procure por nomes conhecidos (por exemplo, sorbato, sulfito, nitrito, nitrato, acetato) ou por códigos alfanuméricos; prefira produtos com listas de ingredientes curtas, frescos e locais quando possível; e trate a despensa como um jardim que precisa de cuidado, onde cada escolha é uma semente plantada no inverno ou no verão do seu bem-estar.
Como observador atento das pequenas grandes mudanças do cotidiano, sugiro que olhemos para a alimentação com a mesma delicadeza com que percebemos as estações: pequenas alterações agora podem transformar a paisagem da saúde no futuro. Mantenha os olhos nas etiquetas, mas também acolha o prazer de preparar alimentos simples e verdadeiros — para que a respiração da cidade e o tempo interno do corpo encontrem harmonia.
O que fazer agora: revise os rótulos, reduza alimentos ultraprocessados quando puder, prefira frescor e ingredientes reconhecíveis, e acompanhe as recomendações das autoridades de saúde à medida que novas evidências forem surgindo.






















