Por Giulliano Martini
Um ano após ter quebrado um silêncio que durou mais de quatro décadas, Paolo De Chiesa detalha pela primeira vez a noite que interrompeu sua carreira. Em entrevista ao Corriere della Sera, o ex-campeão de esqui e comentarista histórico da Rai reconstrói os fatos daquela noite de outubro de 1978, quando, aos 22 anos, foi vítima de um tiro no rosto disparado por sua então namorada.
Na ocasião, De Chiesa era um dos jovens talentos mais promissores do esqui mundial. Estava num grupo de amigos em casa, próximo a Busto Arsizio, acompanhado da namorada, com quem mantinha um relacionamento já desgastado há quatro anos. “Eu havia decidido terminar; esperava o fim da noite para falar”, relatou. Durante o jantar, um desconhecido tirou uma arma — uma Smith & Wesson calibre 38 carregada — e a colocou sobre a mesa. O homem era, depois se descobriu, o irmão de um piloto de motocross com quem a namorada mantinha um relacionamento paralelo.
De Chiesa, então membro da Guardia di Finanza, percebeu o perigo: “Conhecia armas, sabia do risco. Pedi para não fazer nenhuma estupidez”. A situação escalou quando a moça pegou a arma e provocou: “Que, tem medo?”. Ao atender uma chamada da dona da casa e ao se virar, ouviu o tiro. “A bala atravessou o lado esquerdo do meu pescoço, passou a quinze milímetros da carótida e a quatorze milímetros da medula”, disse. “Sou vivo por milagre”.
O relato dos minutos seguintes é clínico e preciso: levou a mão ao pescoço, a retirou cheia de sangue, caiu no chão e pensou estar morrendo. Conseguiu dirigir até o pronto-socorro de Gallarate, onde entrou gritando: ‘Me ajudem, me atiraram, estou morrendo!’.
No período seguinte, De Chiesa optou por uma versão enganosa às autoridades: disse que o disparo havia ocorrido enquanto limpava a arma. A escolha foi motivada por um objetivo claro — insabbiamento e proteção de terceiros — e deu origem a uma investigação superficial. Segundo o próprio ex-atleta, um policial chegou a comentar que acreditava que alguém lhe havia atirado e que ele tentava proteger essa pessoa, mas que havia ordens para encerrar o caso.
As consequências para sua vida profissional e pessoal foram profundas e imediatas. Diagnosticado posteriormente com o que hoje descreve sem hesitação como síndrome de estresse pós-traumático, De Chiesa sofreu perda de apetite e de peso, insônia, impossibilidade de falar ou estudar normalmente e afastamento total das competições. “Perdi doze quilos e deixei de competir”, afirmou. As noites se tornaram longos episódios de angústia, pesadelos e enxaquecas incapacitantes.
O ex-atleta diz ter mentido para “cobrir todos” e confessa que, por três anos, viveu num estado de pavor constante que definiu como “um limbo”. Somente ao longo dos anos seguintes a verdade pessoal e o relato público começaram a emergir: primeiro em 2025, em entrevista ao Corriere del Trentino, admitiu que havia “insabbiado tudo”; agora aprofunda a narrativa e os efeitos psicológicos e físicos que o crime provocou.
O caso, longe de ser apenas uma memória pessoal, coloca questões sobre o tratamento policial e institucional de incidentes envolvendo figuras públicas e sobre a pressão para encerrar inquéritos. A versão oficial na época atribuiu o episódio a um colapso nervoso, enquanto De Chiesa detalha uma trama de silêncio que cercou tanto o evento quanto suas consequências.
O depoimento de Paolo De Chiesa é, acima de tudo, um relato de sobrevivência e de denúncia: sobre o poder do silêncio imposto por circunstâncias sociais e institucionais, sobre os danos duradouros do trauma e sobre a escolha de viver, finalmente, dizendo a verdade.






















