Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, em linhas sutis, a cartografia da influência no Ártico, o presidente Trump anunciou a imposição de dazis de 10% sobre oito países europeus que enviaram tropas à Groenlândia. A lista inclui: Danimarca, Noruega, Suecia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia. A Itália não consta entre os alvos.
Segundo o comunicado da Casa Branca, as taxas aumentarão para 25% a partir de 1º de junho de 2026 e permanecerão aplicáveis “até que se chegue a um acordo para a compra completa e total” da ilha. Essa formulação, abrupta em tom e objetivo, combina pressão econômica com ambição territorial de longa duração: os Estados Unidos, diz a administração, procuram a aquisição da Groenlândia há mais de 150 anos.
Em Copenhague, milhares de pessoas foram às ruas em protesto, empunhando cartazes que pediam respeito à soberania da ilha: “Mãos fora da Groenlândia, não está à venda”. Paralelamente, a União Europeia convocou reunião com os embaixadores dos 27 Estados-membros para avaliar a situação e coordenar uma resposta diplomática e estratégica.
Do ponto de vista das relações internacionais, há duas leituras operantes. A primeira é literal: trata-se de uma retaliação econômica e política contra os países que participaram da operação militar conhecida como “Artic Endurance”, que visou reforçar a presença aliada no Ártico. A segunda é tática: Trump, frequentemente descrito como um “deal maker”, pode estar usando os dazis como instrumento de pressão para forçar interlocutores a negociar a longo prazo, transformando tarifas em moeda de barganha.
Em sua declaração pública, o presidente evocou motivos estratégicos — a crescente importância do Ártico para sistemas de armas modernos e a proteção de infraestruturas críticas que, segundo ele, justificariam a aquisição. A retórica de Trump também incluiu críticas à Dinamarca por décadas de recusa e menções ao suposto desequilíbrio nas relações econômicas com os Estados europeus.
Para um analista de geopolítica, o episódio pode ser lido como um movimento decisivo no tabuleiro: um lance tanto de intimidação quanto de sondagem. Ao impor dazis, Washington busca recalibrar incentivos e custos para aliados-nação que disputam áreas estratégicas no Ártico, enquanto testa a coesão transatlântica.
As implicações práticas são múltiplas. Primeiro, o aumento de tarifas para 25% afeta cadeias logísticas sensíveis e pode elevar tensões dentro da Otan, que se baseia em solidaridade e previsibilidade. Segundo, abre espaço para negociações multilaterais sobre presença militar, bases e exploração de recursos. Terceiro, provoca um redimensionamento das prioridades europeias: defesa territorial no Ártico versus custos econômicos imediatos.
O desenlace depende agora da resposta europeia e das iniciativas diplomáticas em Bruxelas e Copenhague. A opção por retaliar economicamente, buscar arbitragem internacional ou abrir uma via de negociação bilateral com Washington compõe o leque de possibilidades. No entanto, importa lembrar que, num teatro estratégico, cada tarifa é também um movimento no jogo de xadrez da influência: não apenas uma punição, mas uma oferta de futuro acordo.
Enquanto a retórica presidencial se mantém firme, cabe aos estados europeus avaliar se cedem ao impulso de reagir com isolamento econômico ou se procuram manter os alicerces da diplomacia conjunta, preservando a arquitetura da cooperação transatlântica. Em suma, a crise da Groenlândia é, ao mesmo tempo, um teste de resistência diplomática e um convite para renegociar os limites do poder no Ártico.





















