Por Marco Severini
As declarações recentes de Donald Trump — segundo as quais “é tempo de buscar uma nova liderança para o Irã” — reacendem, no palco internacional, velhos padrões de comportamento das grandes potências. Reportadas por jornais nacionais e internacionais, essas palavras não podem ser interpretadas como mero retórico eleitoral: elas desenham, com clareza estratégica, um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico.
Ao propor a substituição de uma cúpula estatal estrangeira, os Estados Unidos retomam a postura do gendarme global, invocando pretextos morais que costumam servir de dossel às intervenções externas. Trata-se de um padrão reconhecível — que aqui identifico como expressão do imperialismo estadunidense — baseado em duas peças retóricas recorrentes: a acusação de tirania e a promessa de emancipação. Na arquitetura diplomática que sustenta tais iniciativas, os alicerces são frágeis; a retórica humanitária frequentemente oculta objetivos de poder e domínio.
As manifestações que abalam o Irã precisam ser analisadas com lentes críticas e cartográficas: nem toda insurgência é exógena, nem todo descontentamento interno é produto de manipulação externa. Ainda assim, a história recente oferece precedentes inquietantes. O conceito das chamada revoluções coloridas — mobilizações com nexos verificáveis a financiamento e apoio de atores ocidentais — é parte do repertório de influências não militares que alteram, lentamente, o desenho das fronteiras políticas. O risco, quando potências externas adotam uma postura de promoção seletiva de regimes amigos, é o redesenho de fronteiras invisíveis, onde soberanias ficam subordinadas a interesses de ordem estratégica.
Quando Washington se apresenta como árbitro moral, invocando a intervenção humanitária, o epílogo histórico nem sempre confirma a promessa. O que se viu na Líbia e no Iraque — intervenções que visavam a suposta emancipação de povos e que resultaram, em muitos casos, em colapsos institucionais e vácuos de poder — é uma advertência pragmática. Como já notou o historiador Tácito em sua formulação lapidar, fazem o deserto e o chamam de paz: imagem dura, mas pertinente quando se avalia o resultado líquido dessas operações.
Do ponto de vista da estabilidade regional e da tectônica de poder, uma tentativa exterior de substituição de liderança no Irã inauguraria uma nova fase de instabilidade, com efeitos sistêmicos que extrapolariam as fronteiras iranianas. Irã não é apenas um ator regional: é um nó estratégico que conecta dinâmicas energéticas, militares e religiosas no Oriente Médio. Mexer nesse nó sem um plano de arquitetura institucional capaz de sustentar a ordem é um convite ao caos.
Em termos de Realpolitik, o que se anuncia é um jogo de somas não-zero: ganhos aparentes de curto prazo podem se converter em perdas duradouras de influência, legitimidade e segurança. A comunidade internacional, e especialmente os atores europeus, tem papel a desempenhar como moderadores, evitando que a retórica belicista converta-se em ação que desestabilize um tabuleiro já frágil.
Em suma, a proposta de Donald Trump para “mudar a liderança” no Irã deve ser entendida como sinal de uma tentativa de reafirmação do domínio americano por meios que não rejeitam nem a coerção nem a engenharia política. É um movimento que exige vigilância analítica: em geopolítica, como no xadrez, cada peça sacrificada em nome de uma vitória de curto prazo pode comprometer a posição estratégica por várias jogadas.






















