Por Marco Severini — A União Europeia ergueu-se como um bloco coeso diante da nova investida tarifária de Donald Trump, numa resposta que não é retórica de ocasião, mas sim um movimento calculado no tabuleiro diplomático. A ameaça presidencial de aplicar tarifas de 25% contra países que se opõem às pretensões norte-americanas sobre a Groenlândia desencadeou uma reação imediata e de rara unidade entre os principais grupos do Parlamento Europeu.
Em cadeia, líderes políticos europeus exigiram a suspensão do acordo comercial UE-EUA. O apelo partiu inicialmente de Manfred Weber, do PPE, e recebeu rapidamente o apoio de Iratxe García Pérez, líder dos Socialistas e Democratas (S&D), e de Valérie Hayer, presidente do grupo centrista Renew. A mensagem foi uniforme: a UE não se curvará a intimidações.
Iratxe García Pérez qualificou como inaceitáveis as propostas de direitos aduaneiros de 25% contra aliados que defendem a soberania groenlandesa. Em tom igualmente firme, Valérie Hayer instou à ativação imediata do instrumento anti-coerção, o mecanismo concebido precisamente para responder a chantagens económicas externas — uma peça institucional que, agora, é puxada para o centro do tabuleiro.
Mais incisiva ainda foi a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, que, através da plataforma X, reafirmou a linha de determinação: “A União apoia a Dinamarca e o povo da Groenlândia. A ilha não está à venda e nenhuma ameaça de tarifas mudará esse fato.” Metsola alertou também para o risco de desestabilização da segurança no Ártico, onde medidas coercitivas contra aliados podem, na prática, favorecer os inimigos comuns do Ocidente — uma mudança de alicerces na tectônica do poder regional.
Da própria Groenlândia, a ministra das Recursos Minerais, Naaja Nathanielsen, saudou a resposta europeia. Em mensagem no LinkedIn, sublinhou confiança na diplomacia e nas alianças, lembrando que a controvérsia já se converteu no eixo de uma crise diplomática que envolve oito países europeus acusados de terem enviado tropas ao território ártico.
No outro lado do Atlântico, a disputa migra para o Senado dos Estados Unidos. Líderes democratas qualificaram a estratégia de Trump como uma “fantasia imperialista sem sentido”. Chuck Schumer, acompanhado por Ron Wyden, anunciou um projeto de urgência para bloquear as tarifas presidenciais e conter uma escalada comercial com a Europa — uma jogada legislativa destinada a fechar linhas de ataque e preservar as vias do comércio transatlântico.
Tratam-se de movimentos que vão além do eco jornalístico: são deslizamentos estratégicos num tabuleiro onde o controle do Ártico, a segurança da NATO e as cadeias de suprimento energético e mineral se interconectam. A resposta europeia não foi apenas defesa de princípios, mas a construção de uma barreira institucional contra ações que ameaçam redes de estabilidade já frágeis.
Em suma, a crise em torno da Groenlândia demonstra que, na era contemporânea, territórios remotos podem tornar-se peças centrais num jogo de influência global — e que a diplomacia europeia está pronta a exercer um movimento decisivo para proteger seus interesses e alianças.





















