Depois de mais de um quarto de século de negociações, a UE‑Mercosul foi finalmente selada, conectando a União Europeia aos países do Mercosul — Uruguai, Paraguai, Argentina e Brasil — em um mercado de mais de 700 milhões de habitantes e cerca de um quarto do PIB mundial. Trata‑se de um pacto que vai além do comércio: incorpora cláusulas políticas sobre direitos humanos, Estado de direito, igualdade de gênero, cooperação no combate ao crime organizado e compromissos vinculantes para o meio ambiente e a luta contra o desmatamento.
No plano econômico, o acordo prevê uma redução progressiva de tarifas hoje muito elevadas nos países do Mercosul: até 35% para vinhos, 28% para queijos e 35% sobre automóveis. A Comissão Europeia estima que o tratado possa sustentar cerca de meio milhão de empregos na UE ligados às exportações.
O acordo precisa agora ser ratificado nos Parlamentos nacionais e no âmbito europeu antes de entrar em vigor. Para a Comissão, há potencial para impulsionar crescimento económico e comércio, com ganhos particulares para as PME e o setor agroalimentar de qualidade. Mas qual é o efeito prático para a Itália?
O relacionamento comercial entre a Itália e os países do Mercosul já tem impacto substancial: sustenta cerca de 3,4 milhões de empregos — um em cada sete trabalhadores do país. Os fluxos totais de bens e serviços alcançam 16,4 mil milhões de euros, e o novo pacto vai eliminar os direitos aduaneiros sobre 91% dos produtos, abrindo um mercado até agora altamente protegido.
As empresas italianas serão particularmente beneficiadas pela eliminação progressiva de tarifas em setores estratégicos: máquinas e equipamentos elétricos, hoje penalizados por taxas elevadas; o setor químico‑farmacêutico; instrumentos óticos e médicos; além de aço, produtos metálicos e plásticos. A remoção desses custos alfandegários reduzirá o preço de acesso e reforçará a competitividade das exportações italianas na região.
As exportações italianas do compartimento citado, hoje em cerca de 489 milhões de euros, ganharão fôlego com tarifas muito reduzidas ou eliminadas. Paralelamente, o acordo prevê o reconhecimento e a proteção de 57 Indicações Geográficas italianas no Mercosul — entre elas Parmigiano Reggiano, Prosciutto di Parma, Aceto Balsamico di Modena, Prosecco e Grappa. A tutela legal contra imitações permitirá consolidar posicionamento premium para esses produtos, com preços que podem alcançar duas a três vezes o de alternativas não certificadas.
Nos serviços — um setor que já gera 1,9 mil milhões de euros anuais em exportações italianas, liderado por turismo, atividades empresariais e transporte — o acordo simplifica condições operacionais. Torna mais fluidas as atividades em serviços financeiros, telecomunicações, transportes e digitais, facilitando a presença das empresas italianas no terreno e a prestação de serviços transfronteiriços.
Do ponto de vista das PME, que representam 98% dos exportadores italianos, as melhorias serão tangíveis: procedimentos aduaneiros mais ágeis, menor carga administrativa e instrumentos de apoio que reduzem os custos de internacionalização. Em suma, a calibragem fina das regras comerciais e das salvaguardas ambientais atua como a afinação do motor de uma máquina complexa: permite acelerar as exportações sem perder controle sobre padrões sociais e ecológicos.
Minha leitura estratégica: a Itália parte com vantagem competitiva em bens de alto valor agregado e em produtos agroalimentares certificados. A tarefa política e económica agora é assegurar que a execução do acordo preserve setores sensíveis, enquanto se desenham instrumentos de apoio — financiamento, digitalização logística e formação — para que empresas, especialmente as PME, convertam essa abertura em crescimento real e empregos sustentáveis.
Assinatura: Stella Ferrari — Economista sênior e estrategista de mercado, com visão de performance e foco em desenvolvimento econômico.






















