Em Madrid, o Museu do Prado prepara-se para um abraço cultural com a Itália. A grande exposição “A la manera de Italia. España y el Mediterráneo (1320-1420)”, programada de 26 de maio a 20 de setembro de 2026, promete ser um dos eventos artísticos do ano na Europa, relendo a Idade Média como um tempo de trocas, viagens e contaminações culturais através do mar.
Segundo o diretor do museu, Miguel Falomir, «sem a Itália é difícil compreender a paisagem artística da Espanha tardo-medieval». É essa circulação — de artistas, de obras, de ideias — que introduziu inovações estéticas e técnicas iconográficas, deixando uma «impressão profunda e duradoura» nos reinos ibéricos. Ao mesmo tempo, mestres locais reelaboraram essas influências em fórmulas híbridas e ecléticas, verdadeiras declinações originais dos modelos italianos.
O eixo da mostra aponta o Mediterrâneo como um espaço de fronteiras permeáveis, atravessado por rotas comerciais e diplomáticas onde ocorreram constantes «viagens de ida e volta». É um convite a imaginar portos e ateliers, mercadores e embaixadas, oficinas onde pigmentos e narrativas se encontram. Nesse cenário, o diálogo entre a cultura gótica e o horizonte islâmico deixa marcas visíveis: da delicadeza das iluminuras à sofisticação de objetos de luxo, passando por formas arquitetônicas e detalhes ornamentais que atravessaram mares.
Como curadora de afetos e de memórias, eu, Erica Santini, vejo nessa iniciativa do Prado uma oportunidade para saborear a história com todos os sentidos. Andiamo: imaginar a luz dourada que banha um painel gótico, ouvir o rumor dos mercados mediterrâneos, sentir o perfume dos vinhedos que acompanharam as rotas comerciais — tudo isso ajuda a perceber como o gótico mediterrâneo não é um estilo estanque, mas um tecido vivo de influências.
A exposição, ao resgatar o período entre 1320 e 1420, propõe uma leitura do Médioevo que desconstrói estereótipos. Em vez de um tempo de isolamento, encontramos uma época marcada por encontros e por uma capacidade notável de reinventar modelos. As obras que circularam entre as costas italiana e ibérica serviram de inspiração e de matéria-prima para interpretações locais que, por sua vez, enriqueceram o repertório visual do Mediterrâneo ocidental.
Para quem ama viajar com os olhos e com a curiosidade, visitar a mostra será como folhear um atlas sensorial: mapas de rotas afetivas, oficinas onde se misturavam conceitos e técnicas, e objetos que guardam a textura do tempo nas suas superfícies. É também uma oportunidade para refletir sobre as conexões históricas que nos lembram que a cultura é sempre fruto do encontro — e que a beleza nasce, muitas vezes, na interseção.
Se estiver em Madrid entre fim de maio e setembro de 2026, não perca essa travessia pelo gótico mediterrâneo. Será uma jornada para saborear a história: Dolce Far Niente, mas com olhos atentos ao detalhe e ao rumor das rotas. Buon viaggio e até lá — eu estarei a sonhar com as cores e os detalhes que essa exposição certamente trará.






















