Sou Erica Santini, e convido você a um passeio sensorial por uma tendência que cheira a pão quente e a papel antigo: o turismo de raízes. Em cidades e aldeias da Itália, descendentes espalhados pelo mundo voltam a seguir pegadas deixadas há um século — mapas pessoais feitos de cartas, registros e memórias.
Uma história que me acompanha é a de Jim Fiorini. O pai de Jim foi um dos mais de dois milhões de italianos que, no início do século XX, zarparam rumo aos Estados Unidos atrás do Sonho Americano. Em solo americano ergueu um negócio de construção e chegou a empregar compatriotas recém-chegados, mas a sombra da Grande Depressão marcou para sempre sua trajetória. Jim lembra do pai comovido pela infância deixada para trás e por uma migração que, por vezes, transformou sonhos em cicatrizes.
Hoje, estabelecido na Pensilvânia, Jim embarcou numa busca íntima pela sua origem italiana na esperança de, como gosta de dizer, “fechar o círculo” dessa emigração forçada. E Jim não é exceção. Cada vez mais norte-americanos — de segundas, terceiras e até quartas gerações — descem a trilha dos antepassados para reconectar-se com a terra que os originou.
Segundo Jennifer Sontag, fundadora e CEO da ViaMonde, agência que auxilia quem procura suas raízes, a Itália tornou-se epicentro desse movimento. Não se trata apenas de visitar monumentos, mas de restabelecer vínculos: tocar um batente de porta que o avô reconheceu, sentir o perfume das uvas de uma colina que foi mencionada em uma carta, ouvir o sotaque do lugar de onde veio a família.
Os caminhos dessa busca nem sempre são lineares. Registros podem estar incompletos, nomes foram anglicizados para escapar ao preconceito do passado, documentos permaneceram em paróquias ou arquivos locais não digitalizados. Ainda assim, avanços em genealogia, testes de DNA e o surgimento de agências especializadas multiplicaram histórias de reencontros e redescobertas.
A própria Itália oficializou esse movimento: 2024 foi declarado o Ano do Turismo das Raízes, estimulando cidades e regiões a acolherem a diáspora com iniciativas que vão de dias de arquivo aberto a roteiros personalizados. Em vilarejos do Sul e na Sicília, onde as dificuldades económicas e instabilidade política impulsionaram grande parte das migrações, famílias inteiras embarcaram rumo ao mesmo destino no exterior — hoje esses povos retornam, agora em busca de pertencimento.
Além da emoção pessoal, esse fluxo traz benefícios palpáveis às comunidades locais: pequenos museus recebem visitas, restaurantes revivem receitas ancestrais, e serviços de arquivos e tradutores prosperam. Agências ajudam a localizar certidões de nascimento, batismo e casamento em registros civis e eclesiásticos; assessorias legais orientam processos de reconhecimento de cidadania italiana; guias locais traçam roteiros por aldeias onde os sobrenomes ainda ecoam nas tabernas.
Mas, como todo bom percurso, exige paciência. A pesquisa genealógica é um trabalho artesanal: envolve leitura de caligrafias antigas, comparação de documentos, viagens a cartórios e paróquias, e, muitas vezes, conversas com moradores que guardam memórias orais. Para quem parte desta jornada, cada descoberta é um perfume — o aroma da família, do lugar, de uma história que se reencontra.
Se você sente o impulso de seguir estas pegadas, leve consigo curiosidade e um coração aberto. Andiamo: navegar pelas tradições é também um convite ao Dolce Far Niente dos vilarejos italianos — saborear a história, sentir a luz dourada sobre as pedras antigas e, talvez, encontrar ali a sua casa.






















