Ciao, viajante dos sentidos — trago uma notícia que cheira a madeira antiga e tinta a óleo: pela primeira vez em quase 40 anos o Ragazzo con canestro di frutta, obra-prima de Caravaggio conservada na Galleria Borghese, atravessou o Atlântico e pousou em Nova York. Até 19 de abril, o quadro de 1595 estará em exibição na JP Morgan Library, numa mostra que convida a dolce far niente contemplativa.
Organizada com o apoio da FIAC — a Fondazione per l’arte e la cultura italiana ligada a Alain Elkann e Daniele Bodini — a exposição coloca o Ragazzo con canestro di frutta no centro de uma conversa visual que atravessa gerações. O curador John Marciari não buscou simplesmente emprestar outros quadros de Caravaggio presentes em museus americanos (uma solução óbvia); preferiu libertar esta figura-limite da sua isolada grandeza e colocá-la ao lado de predecessores e seguidores, desenhando uma narrativa sobre a ruptura que deu origem à pintura barroca moderna.
O diretor da Morgan, Colin Bailey, lembrou com ternura que JP Morgan tinha um amor pela Itália e pela história da sua arte. E é precisamente esse amor — quase um aperitivo cultural — que faz desta mostra uma pequena viagem: uma galeria de 13 pinturas que, juntas, traçam o impacto do jovem Caravaggio que, com luz e sombra, colocou o homem e o quotidiano no palco pictórico.
O quadro de 1595 é descrito por Marciari como o primeiro verdadeiro capolavoro de Caravaggio. Nela, a natureza-morta e a figura humana se fundem numa tensão silenciosa: o cesto de frutas, exuberante e efêmero, contrasta com a presença curiosa do rapaz — uma composição que rompe com os ideais renascentistas e inaugura uma nova poética visual. Ao aproximar o público desta tela em solo norte-americano, a mostra reaviva a história de como a arte italiana moldou olhares e técnicas além-mar.
Para nós, amantes das viagens que vão além dos guias, esta é uma oportunidade de saborear a história com todos os sentidos — imaginar o sussurro do verniz, sentir a luz dourada que Caravaggio domina, perceber a textura do tempo nas paredes da Galleria Borghese que agora atravessou um oceano. Andiamo: visitar a Morgan é também visitar a Itália, em pensamento e no coração.
Se estiver em Nova York antes de 19 de abril, reserve um momento para se perder diante desta tela. Se não puder ir, deixe que a notícia sirva de convite para a próxima viagem — e para voltar a redescobrir os segredos locais que fazem da arte italiana uma eterna promessa de descoberta.






















