Ciao, sou Erica Santini, e convido você a se aproximar: a cena no canteiro da Sagrada Família é quase cinematográfica. Uma laje de pedra sobe lentamente, suspensa por uma grua, até se encaixar no corpo da torre central. Pesa dezenas de toneladas, mas o movimento é tão preciso que parece coreografado. Abaixo, no labirinto do estaleiro, operários e técnicos acompanham o engate em silêncio, como se todos compartilhassem um pequeno segredo.
É mais um passo decisivo na construção da Torre de Jesus Cristo, chamada a atingir os 172,5 metros até junho — data simbólica que lembrará os 100 anos da morte de Antoni Gaudí. Hoje, mais de 200 profissionais, entre mestres especializados e artesãos, trabalham no templo, coordenados por um grupo de cerca de 20 arquitetos sob a direção de Jordi Faulí. “Este é sempre o momento de máxima tensão”, admite um dos responsáveis pelo canteiro, enquanto o painel é fixado no braço horizontal da cruz, já em sua reta final. “Você conhece o processo, mas ver tanta massa suspensa tem quase um efeito milagroso.”
No recente avanço das obras, foram instalados os quatro braços horizontais da grande cruz que coroa a torre. Resta apenas posicionar o último elemento, o braço superior, que acolherá em seu interior a escultura do Agnus Dei, obra do artista italiano Andrea Mastrovito. Quando completa, a cruz — de cinco pontas e iluminada — terminará de compor o desenho final que combina técnica e simbolismo.
Andiamo: a escala desta intervenção nos lembra por que a obra de Gaudí transcende a arquitetura e se aproxima da escultura, da música e da luz. Cada peça colocada no alto conta uma história: o ruído sutil das correntes, o cheiro do cimento fresco, a luz dourada que banha as pedras ao entardecer — tudo convida a uma experiência sensorial. Sentimos a textura do tempo nas paredes e a paciência dos artesãos que esculpem com ferramentas contemporâneas técnicas centenárias.
A expectativa é grande, não apenas pelo marco da altura, mas pelo significado emocional: a finalização de elementos centrais do templo que, desde o início, foi pensado por Gaudí como um organismo vivo, em constante construção. A equipe atual segue os princípios do mestre, interpretando-os com materiais e métodos modernos, mas preservando o espírito orgânico e simbólico do projeto.
Para os barceloneses e para quem visita a cidade, a Sagrada Família é mais do que um monumento: é um poema em pedra que se lê com os olhos e com o coração. E, mesmo enquanto a última cruz é ajustada, a obra continua a nos ensinar a paciência do tempo bem trabalhado. É um convite ao Dolce Far Niente contemplativo: parar, olhar, e saborear a história que ainda se constrói.

















