Ciao, viajante. Há algo intimamente romântico em embarcar à noite, fechar a porta da carruagem e acordar com a luz dourada de uma cidade diferente — é o verdadeiro Dolce Far Niente em movimento. Ainda assim, apesar da paixão crescente dos europeus pelos comboios noturnos, a realidade mostra um cenário de avanços e recuos: muitas rotas têm sido suspensas, e o tão anunciado renascimento parece atrasar-se.
O final de 2025 foi palco de manifestações curiosamente poéticas: pessoas em pijama acamparam em cidades como Amesterdão, Lisboa e Viena para exigir mais investimento na rede ferroviária noturna da Europa. Com 2026 apontado como um ano decisivo para decisões sobre novos comboios, financiamento e entrada de operadores privados, a pergunta permanece — os desejos dos manifestantes serão atendidos?
A resposta começa pela Áustria. A operadora nacional ÖBB é hoje a maior provedora internacional de trens nocturnos no continente e tem sido vista como fio condutor deste capítulo. Segundo Bernhard Rieder, porta‑voz da empresa, a ÖBB está a investir mais de 500 milhões de euros em uma nova frota Nightjet — mais do que qualquer outra companhia ferroviária europeia. Espera‑se que 24 comboios noturnos completamente novos estejam em circulação a meados de 2026.
Mas a música não toca intacta: esse número impressionante fica aquém do plano inicial de 33 unidades, porque parte dos fundos foram redirecionados para reforçar serviços diurnos. Este ajuste de prioridades ilustra bem a tensão entre ambição e realidade financeira — e afeta diretamente o ritmo de abertura de novas rotas noturnas.
Os obstáculos recentes provaram ser concretos. Em dezembro, a ÖBB foi forçada a suprimir as ligações de Paris para Viena e Berlim depois de cortes nos subsídios pelo governo francês; ligações que estavam em operação desde 2021 e 2023, respetivamente. Antes disso, em março, a linha Bruxelas–Berlim foi suspensa, sobretudo por causa de obras na Alemanha. E, já em 2026, circulações de Viena para Milão e para a cidade portuária de La Spezia também foram interrompidas devido a trabalhos de construção — a ligação a La Spezia, lançada em dezembro de 2022, oferecia um elo direto entre a Áustria/Alemanha e a Riviera italiana.
Os desafios não ficam confinados à ÖBB. Em outro exemplo doloroso, o projeto de um comboio noturno da SBB entre Basileia, Copenhaga e Malmö, previsto para abril de 2026, foi cancelado depois do parlamento suíço retirar o financiamento — mesmo com bilhetes já à venda. Este revés é surpreendente num país com histórico sólido de investimento em infraestruturas ferroviárias e transporte de longa distância.
Além dos cortes orçamentais, existem barreiras técnicas e operacionais: disponibilidade de vias, diferenças nos sistemas de sinalização entre países, variações nas dimensões do material circulante e uma procura ainda incerta para serviços recentemente lançados. Estas questões tornam complexa a operação de ligações transfronteiriças que deveriam ser, na essência, fluidas.
Há, contudo, sinais institucionais de tentativa de melhoria. Um novo regulamento europeu sobre capacidade ferroviária, em fase de implementação, pretende facilitar o planeamento transfronteiriço — embora os ativistas alertem que os seus efeitos sobre os comboios noturnos ainda são difíceis de avaliar na prática.
Com decisões de financiamento, entrada de operadores privados e uma nova regulamentação no radar, 2026 pode ser realmente um ano-chave. Mas para que o sonho não fique pela janela de um vagão, serão necessários alinhamentos políticos, vontade pública e soluções técnicas que permitam às noites europeias recuperar o encanto de viajar sem pressa.
Como curadora de experiências, digo: Andiamo com cautela, mas com esperança. Os comboios noturnos não são apenas um modo de transporte — são pequenos universos onde se saboreia a história, onde o perfume dos vinhedos se mistura ao luar e onde a textura do tempo nas paredes das estações convida à descoberta. Precisamos proteger essa poesia e, claro, garantir que haja bilhetes suficientes para todos nós.






















