Teerã elevou o tom das suas acusações sobre as manifestações internas: o Ministério da Defesa iraniano afirmou que a CIA e o Mossad estariam a oferecer pagamentos a manifestantes para promover ações violentas e criar caos. Em comunicado veiculado pela emissora estatal IRIB, o ministro Aziz Nasirzadeh descreveu a existência de um verdadeiro “centro de coordenação terrorista” que, segundo Teerã, incluiria células estrangeiras e grupos separatistas com o objetivo de desestabilizar o país.
Nas declarações oficiais, o ministério detalhou escalas de pagamento supostamente oferecidas aos envolvidos nas ações mais agressivas: cerca de US$3.500 para o assassinato de uma pessoa, US$1.300 para incendiar um veículo, mais de US$550 para queimar uma estação policial e pouco mais de US$100 para atos de vandalismo. “Não se trata de protestos civis”, afirmou Nasirzadeh, “mas de atos organizados e pagos, finalizados a semear o caos”.
Em idioma de diplomacia dura, a narrativa iraniana propõe que os episódios violentos observados em diversas províncias não são fruto exclusivamente de legítimas manifestações de dissenso, mas de uma operação coordenada a partir do exterior. A alegação encontra eco em outras vozes dentro do país: o ex-agente de inteligência citado pela mídia local, identificado como Mancini, afirmou haver presença física de agentes da CIA, do Mossad e, segundo ele, também de serviços de inteligência do Azerbaijão.
No plano internacional, a questão ganhou espaço no Conselho de Segurança da ONU, onde houve confronto entre Washington e Teerã. Autoridades americanas expressaram preocupação com as mortes e ameaçaram medidas para conter as violências — retórica que Teerã rejeitou, acusando os Estados Unidos e Israel de manterem “as mãos sujas de sangue”.
Do ponto de vista analítico, a acusação iraniana combina dois vetores clássicos da cartografia dos conflitos: a narrativa de ingerência externa e a identificação de um núcleo orgânico de coordenação interna. Se confirmadas, as alegações indicariam um desenho operacional intenso, com atores externos a procurarem instrumentalizar fissuras sociais e grupos separatistas, o que corresponderia a um movimento decisivo no tabuleiro da estabilidade regional.
No entanto, para observadores independentes, a existência de pagamentos e de um “centro” precisa ser demonstrada por evidências abertas e verificáveis. Em cenários de alta tensão, as declarações oficiais frequentemente cumprem funções estratégicas — tanto para consolidar apoio interno quanto para moldar percepções externas — e exigem cruzamento com informações de inteligência e fontes independentes.
Enquanto Teerã sustenta haver um esquema coordenado de desestabilização envolvendo Estados Unidos, Israel e aliados, o episódio tende a intensificar a tectônica de poder na região: aumentam as pressões sobre as fronteiras diplomáticas, crescem os riscos de escalada e torna-se mais difícil distinguir o legítimo protesto social de operações de influência. Em termos de estratégia, trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis que solicita respostas prudentes das capitais e mecanismos internacionais de verificação.
Como analista, chamo atenção para dois alicerces frágeis desta fase: a credibilidade das provas apresentadas por Teerã e a reação coordenada (ou a falta dela) da comunidade internacional. A dinâmica que se seguir dependerá da capacidade dos atores de produzir prova fechada e de como os blocos estratégicos — regionais e globais — escolherão seus próximos movimentos no tabuleiro.






















