16 de janeiro de 2026
Por Marco Severini — À medida que entramos em 2026, a reflexão pública de Bill Gates desloca-se do otimismo tecnológico para um alerta estratégico sobre os riscos sistêmicos da Inteligência artificial. Em um texto extenso publicado em seu site pessoal, o cofundador da Microsoft adverte que grupos não governamentais poderiam empregar ferramentas de IA open source para projetar uma arma bioterrorística, com potencial de desencadear uma nova pandemia mais danosa do que a Covid-19.
Gates organiza sua análise em três perguntas centrais destinadas a moldar as próximas décadas. As duas primeiras giram em torno das desigualdades — econômicas e sociais — e sobre se o crescimento global será traduzido em maior generosidade e prioridades tecnológicas que reduzam as lacunas. A terceira, contudo, é a mais imediata e inquietante: como mitigar os efeitos adversos da aceleração da IA?
Segundo Gates, “um risco hoje maior do que uma pandemia de origem natural é que um grupo não governamental utilize ferramentas de inteligência artificial open source para projetar uma arma bioterrorística”. Esta não é uma nota alarmista solitária: análises independentes, incluindo relatórios coordenados pela Nuclear Threat Initiative e pela Munich Security Conference, já haviam sinalizado a crescente convergência entre biotecnologia e algoritmos avançados — uma tectônica de poder que redesenha fronteiras invisíveis entre pesquisa civil e capacidade destrutiva.
O diagnóstico exige uma leitura que vá além do pânico técnico. Trata-se de um problema de governança global e de arquitetura institucional. As ferramentas de IA democratizam competências poderosas — modelagem de proteínas, automação de experimentos, otimização de sequências genéticas — e, como todo jogo de soma zero, as inovações têm dupla utilidade. Se no tabuleiro de xadrez da tecnologia os movimentos promovem progresso, também abrem linhas de ataque se não houver defesas conjuntas: normas, fiscalização transnacional, investimento em biossegurança e mecanismos de resposta rápida.
Gates conclama as principais potências e atores privados a aumentarem investimentos preventivos — não apenas em pesquisa médica reativa, mas em vigilância, detecção precoce e resiliência social. A ênfase é clara: melhores alicerces institucionais reduzem a probabilidade de um movimento decisivo e catastrófico no tabuleiro global.
Como diplomata da informação, é prudente observar que o debate entre abertura e controle não admite soluções simplistas. A comunidade científica e tecnológica valoriza a transparência e a colaboração; entretanto, quando a velocidade de difusão de técnicas avançadas ultrapassa a capacidade regulatória, instala-se uma zona cinzenta explorável por atores mal-intencionados. Consequentemente, a resposta eficaz requer três linhas de ação combinadas: regulação técnica, cooperação internacional e fortalecimento das defesas sanitárias globais.
Em suma, o apelo de Gates é um chamado estratégico: preservar os benefícios da IA sem subestimar seus riscos sistêmicos. Na cartografia contemporânea do poder, a interseção entre algoritmos e biologia configura uma nova fronteira onde as decisões de hoje definirão a segurança coletiva dos próximos anos.





















