Por Giuseppe Borgo — Em mais uma operação que revela como as linhas entre comércio legítimo e evasão de sanções podem ser soterradas por fraudes documentais, a Guardia di finanza e a Agenzia delle Dogane de Brindisi decretaram o sequestro de uma nave atracada no porto do capoluogo pugliese. A embarcação, com bandeira de uma pequena ilha do Oceania, chegou ao porto vindo de águas territoriais russas do Mar Negro, transportando 33.000 toneladas de material ferroso em aparente violação das sanzioni impostas à Federazione Russa após a invasão da Ucrânia.
Segundo comunicado das autoridades, a operação parte do quadro normativo do Regolamento UE 833/2014 e suas integrações, que proíbem operações comerciais em determinados portos russos e a importação de categorias específicas de mercadorias, além de estabelecerem sanções a pessoas físicas e jurídicas incluídas em listas negras.
O sequestro preventivo d’urgenza foi convalidado pelo gip de Brindisi e confirmado pelo Tribunal del Riesame. O importador, o armador e alguns membros da tripulação estão atualmente indagados sob a acusação de terem eludido as medidas restritivas da União Europeia. Na chegada da motonave, a declaração de importação foi selecionada para verificação pela Agenzia delle Dogane, dada a natureza da carga e a origem geográfica.
Os controlos conjuntos da Guardia di finanza e da Agenzia delle Dogane, apoiados pelo Reparto aeronavale da Guardia di finanza de Bari e pela Sezione operativa navale de Brindisi, revelaram “graves incongruências, falsificações e alterações” na documentação de bordo relativa aos pontos de escala e às operações de carregamento. A análise dos registros do sistema de navegação permitiu reconstruir a rota da embarcação e demonstrar que ela permaneceu em Novorossijsk — porto russo sujeito a sanções — entre 13 e 16 de novembro de 2025, realizando operações proibidas de carga.
Outro elemento-chave da investigação foi a constatação de que o sistema AIS (o transponder GPS que transmite posição, rota e velocidade das embarcações) foi desativado nas imediações de Novorossijsk, aparentemente para evitar a geolocalização e dificultar a atividade de fiscalização. A checagem na base de dados Lloyd’s S&P Global Maritime, utilizada pela Agenzia delle Dogane, forneceu corroborantes que reforçam as suspeitas de manipulação das informações de bordo.
As investigações agora buscam identificar a cadeia de responsabilidade que permitiu que esse carregamento alcançasse um porto italiano: desde a origem do material até os intermediários que facilitaram a documentação falsificada. Este caso expõe a fragilidade de determinados pontos da arquitetura do comércio marítimo, onde o “peso da caneta” — a assinatura e a documentação — pode erigir ou derrubar barreiras burocráticas com impacto direto na construção dos direitos e deveres comerciais entre nações.
Para a sociedade civil e a comunidade de imigrantes e ítalo-descendentes que acompanham as políticas de controle comercial, a operação de Brindisi representa uma confirmação de que as instituições estão atentas, mas também um alerta: as leis e regulamentos só se tornam alicerces efetivos se houver fiscalização contínua e ferramentas tecnológicas que fechem lacunas exploráveis por operadores mal-intencionados.





















