O que faz Kevin Spacey dentro de um minimarket romano? A pergunta, ao mesmo tempo curiosa e um pouco melancólica, define o tom de Minimarket, a série de dez episódios agora disponível no RaiPlay. No centro da narrativa está Filippo Laganà como Manlio Viganò, um jovem formado em direito que abandona a carreira forense para perseguir um sonho televisivo — e encontra no ato cotidiano de reestocar prateleiras um teatro íntimo para suas ambições.
Na fantasia de Manlio, que trabalha em um minimarket de propriedade de um srilankês, surge a figura de Kevin Spacey — não como um intérprete de outro papel, mas como ele mesmo, uma presença imaginária que aconselha, canta e performa para o protagonista. O artifício remete ao encontro entre realidade e alucinação, a pouco que o cinema nos ensinou sobre espelhos sociais: é um reframe da celebridade, um eco cultural de como projetamos ídolos pessoais em espaços banais.
Há um gesto de nostalgia cinéfila nesta escolha: a cena de um astro que só o protagonista vê lembra, sem forçar comparação, o encontro entre Humphrey Bogart e Woody Allen em Provaci ancora Sam. Mas o paralelo termina aí. Apesar do empenho de Filippo Laganà, da presença de convidados como Francesco Pannofino, Massimo Ghini, Giorgia Cardinaletti e a cantora Alexia, a série se apresenta como uma obra de rara modéstia — na produção e na direção assinada por Sergio Colabona.
Ver Kevin Spacey cantar “You’ve Got a Friend in Me” ou “I’ve Got You Under My Skin” em cena traz uma sensação estranha: técnica intacta, interpretando um brilho que parece ter perdido a intensidade original. É como ver um ator em smoking ao lado de um carro modesto — o ofício se mantém, o contexto mudou. Esta é a primeira aparição televisiva de Spacey desde que, em 2017, foi demitido de House of Cards após acusações de assédio sexual. Ainda que tenha sido absolvido em processos posteriores, as repercussões públicas e profissionais persistem e condicionam o significado de seu retorno às telas.
A Itália, contudo, mostrou-se receptiva: o país o recebeu no cinema antes mesmo de decisões judiciais no Reino Unido e, depois da absolvição, Spacey apareceu em filmes, eventos e premiações por aqui. Em Minimarket, essa convivência entre acolhimento e cautela transforma sua presença numa espécie de testemunho cultural — ao mesmo tempo um gesto de reinserção e um espelho das ambiguidades do nosso tempo.
O resultado é uma série modesta e discreta, que não pretende ser um espetáculo sobre escândalos nem uma exaltação de estrelas. Prefere ser um pequeno palco onde a celebridade vira conselheira interior e o sonho televisivo se choca com a realidade do trabalho cotidiano. Para o observador cultural, há aqui algo interessante: a semiótica do viral substituída pela simplicidade do cotidiano, e a possibilidade de ver no reencontro com uma figura tão controversa o roteiro oculto de como a indústria do entretenimento e a memória pública reconstroem — ou não — suas narrativas.
Minimarket não é uma série memorável por suas soluções dramáticas, mas funciona como documento sobre a era pós-celebridade e sobre a economia simbólica que envolve redenção, exposição e carreira. Espaços pequenos, como um minimarket, tornam-se, assim, palcos precisos para interrogar o peso do passado em quem tenta voltar a brilhar.






















