Por Chiara Lombardi — Em uma noite de diálogo no Teatro alle Grazie, Bergamo assistiu a um encontro que foi mais do que uma conversa entre dois artistas: foi um espelho do nosso tempo. Em “Materia Poetica”, Davide Rondoni e Ugo Riva colocaram em cena a tensão entre palavra e forma, memória e matéria, e traçaram um diagnóstico contundente sobre a arte e a educação contemporâneas.
Rondoni — poeta, escritor e ensaísta com longa experiência em diálogo com as artes visuais — afirmou que o rótulo “contemporâneo” pouco diz: “Contemporâneo indica apenas o que acontece agora, mas não é uma categoria estética. No hoje convivem múltiplos estilos e linguagens que não cabem numa palavra só”. Para ele, a medida verdadeira da arte é histórica: “A arte se avalia ao longo dos séculos“. A poesia, explicou Rondoni com ironia refinada, vive em um tempo outro: “Um livro de versos não se julga nos primeiros dias, como se avalia a bilheteria de um filme. O meu problema é daqui a setecentos anos”.
Ao seu lado, o escultor bergamasco Ugo Riva trouxe uma narrativa de descoberta tardia e persistência. “Sou um escultor que não sabia ser escultor” — confessou. Filho de uma vocação que emergiu sem escolas de arte formais — ele é autodidata — Riva lembrou seus anos trabalhando em banco por duas décadas antes de optar por seguir o impulso criativo: “Um dia disseram que eu estava desperdiçando meu talento. Voltei para casa e decidi tentar de verdade”.
Para Riva, a escultura foi e continua sendo uma ferramenta de investigação íntima: “Usei-a como um divã psicanalítico. Precisava resolver questões minhas e me contar. Ao me contar, contava também os outros: alegrias, feridas, dores, as grandes perguntas sobre por que estamos aqui”. Essa relação com materiais primários — areia, pedras, madeira, argila — revelou um vocabulário que acabou por ganhar a cidade: entre suas obras está o anjo policromo em bronze diante da sede do Credito Bergamasco, em largo Porta Nuova.
O diálogo entre os dois artistas foi também uma reflexão política e cultural: além da necessidade de julgar a arte pelo seu tempo longo, ambos insistiram na urgência de reconstruir a escola “do zero” — não apenas como reforma estrutural, mas como reconstrução de sentido. Para Rondoni, educação e formação estética caminham juntas: sem uma escola que eduque o olhar e o pensamento crítico, a relação com o roteiro oculto da sociedade se desvia, e a capacidade de reconhecer valor na arte dilui-se.
O encontro deu-se num tom de amizade profunda — há textos escritos um para o outro — e de cumplicidade intelectual. Não era uma palestra sobre técnica, mas um convite a reframear a realidade: ver a poesia e a escultura como dispositivos para interrogar o presente e plantar sementes para o futuro. Como num bom filme europeu, a peça do dia deixou pistas sutis sobre as perguntas de amanhã.
Ao terminar, a mensagem foi clara e elegante: a arte precisa de paciência histórica e a escola precisa ser repensada em profundidade — uma reconstrução que respeite memória, técnica e sentido crítico. Em tempos de consumo acelerado e horizontes curtos, a voz de Rondoni e Riva soa como um chamado para estender o olhar.






















