Nicola Savino, figura conhecida pelo humor rápido e pela presença segura na televisão, abriu uma fresta íntima de sua biografia em entrevista ao programa Ciao Maschio, conduzido por Nunzia De Girolamo e exibido na Rai1. A conversa, que misturou leveza e revelações, desenhou um retrato de infância solitária mas terna — e revelou um temor que acompanha o apresentador: a depressão vivida pelo pai.
Naquela voz que normalmente entrega piadas em sequência, Savino deixou emergir um outro registro — mais calmo, reflexivo e com uma ponta de melancolia. “Tenho uma veia de melancolia que procuro controlar”, confessou o artista, desvelando um dos gestos ocultos do seu temperamento público. E foi daí que veio a lembrança do pai: um engenheiro que trabalhava nos poços petrolíferos e que por isso passava longos períodos fora. O resultado, nas memórias do apresentador, foi uma infância solitária, passada muitas vezes no quarto, entre Lego e construções.
“Meu pai sofreu de depressão, e é algo que eu temo muito”, disse Savino, traçando uma ligação íntima entre memória afetiva e ansiedade herdada. A mãe, descreveu, era uma presença ansiosa que acabou por transmitir esse traço ao filho “quase como uma imposição das mãos”. É uma narrativa que não busca culpabilizar, mas mapear afetos: a ausência física de um progenitor que trabalhava no exterior e a presença emocional limitada de outro.
Num dos momentos mais pungentes da entrevista, Savino recordou o último diálogo com o pai. “Não fui um bom pai”, disse o homem, numa confissão carregada de arrependimento. A resposta de Nicola foi imediata e comovente: “Não, você foi um pai maravilhoso”. O abraço subsequente, descreveu o apresentador, parecia tirado de um livro de memórias — uma cena que ele mesmo resume como necessária para que as palavras possam curar e ultrapassar os nós do passado. Essa pequena cena, quase cinematográfica, funciona como um reframe da narrativa familiar: o perdão e o reconhecimento como desfecho que suaviza a dureza das ausências.
Nem por isso a entrevista deixou de ter trechos mais leves. Quando a apresentadora desviou para as histórias amorosas de Savino, ele brincou sobre sua vida sentimental: “Tive poucas mulheres, pouquíssimas”, disse, qual protagonista de uma comédia romântica discreta. Entre pausas e intervalos afetivos, o artista se definiu como um “bravo guaglione”, expressão que mistura autoironia e aquele verniz de sujeito afável e um tanto tradicional.
Como observadora cultural, é impossível não ler essa conversa como algo maior do que uma confissão pessoal: é o espelho de um tempo em que a saúde mental começa a furar a tela pública, e das tensões entre trabalho globalizado e vínculos familiares. A trajetória de Savino — o entertainer que alterna tiradas cômicas e sinceridades duras — lembra que o show, por trás das luzes, muitas vezes incorpora curtas cenas de humanidade profunda.





















