Por Chiara Lombardi — Há atores que vivem vidas paralelas; Filippo Timi é um deles. Entre personagens que se afundam e ressurgem, Timi reafirma uma constatação quase cinematográfica: a miséria íntima permanece a mesma, apesar das facetas que encarna. Em entrevista, ele descreve o ofício como uma escavação — um mergulho para tocar o fundo do próprio espelho e, depois, emergir com nova consciência.
Para Timi, o palco e a câmera não produzem milagres contra as fragilidades humanas. O teatro é, antes, a escola do risco: “ali você é obrigado a incorporar o outro”, diz. Mas as inseguranças de infância, os medos do escuro, continuam universais — “seja num castelo ou numa barraca, o monstro é o mesmo”.
Entre esses monstros, Timi aponta um que volta e meia domina sua narrativa: a solidão. Havia a ilusão de que a fama poderia preenchê-la; a experiência mostrou o contrário. A presença do público, a aclamação, não substituem um afeto íntimo — um lar que se constrói quando se escolhe sacrificar-se à arte. Ainda assim, ele não renega a escolha: “vale a pena”, afirma com a franqueza de quem reconhece a arte como extensão vital. Seus filmes e montagens são, para ele, “filhos”, propagações de um self que precisa existir fora das rotinas domésticas.
Esta relação profunda com o trabalho se manifesta também em seu compromisso de longa data com I delitti del BarLume, adaptação para a televisão dos romances de Marco Malvaldi. A série — disponível na Sky e na plataforma Now — é, nas palavras de Timi, “o meu relacionamento mais longo”. Desde 2013, o elenco e a equipe cultivam um espírito de coletivo raro: pouca vaidade, muito cuidado mútuo. Um clima de set que, por si só, já é um antídoto contra a presunção que o tempo, às vezes, engendra.
Timi não esconde que, no começo, tinha uma ponta de presunção — um motor necessário quando ninguém aposta em você. “Quando apresentei meu primeiro espetáculo sério, perguntei-me se seria o próximo Shakespeare”, confessa. Hoje, a provocação passou; ficou a disciplina e a ironia.
Além da televisão, o ator retorna ao teatro com Amleto², peça que volta ao palco do Teatro Parenti, em Milão, a partir de 28 de janeiro. Proposta por Andrée Ruth Shammah após 15 anos, a remontagem é descrita por Timi como um novo percurso sobre uma velha cartografia: é desenterrar, para ver com mais profundidade. Nesta versão, o protagonista se confronta com a repetição do destino — a angústia de viver um roteiro que não lhe pertence, a pergunta essencial de quem busca uma saída para um papel que parece pré-determinado.
Entre televisão e palco, entre a aparente multiplicidade das personagens e a permanência de medos antigos, Timi constrói uma carreira que é, sobretudo, um estudo do limite. “Todos combatemos contra algo”, ele diz: o desejo de voar frente ao corpo que impede, o desejo de amar frente ao receio de se expor. É nesse entremeio que a arte assume sua função: não como fuga, mas como reframe da realidade — um espelho que permite ver, finalmente, o próprio contorno.















