Por Aurora Bellini — Em meio ao clarão de um novo tempo climático, as rotas das aves migratórias vêm se adiantando e revelando fragilidades humanas que precisam ser iluminadas com urgência. Pesquisas recentes e observações de campo mostram que várias espécies chegam às costas da Itália e das ilhas jônicas da Grécia entre uma e três semanas antes do costume, impulsionadas pelas mudanças climáticas e pelas temperaturas mais altas.
Nas lagoas de Korission e Antinioti, em Corfu, biólogos locais e comunitários já registram um aumento precoce no tráfego aéreo: aqui pousam garças‑cinzentas, patos, fectas e, para fechar a primavera, os fenicotteros rosas, que costumam chegar mais tarde, entre abril e maio. Nas salinas de Lefkimi esperam-se cavalheiros‑de‑Itália, garças e espécies costeiras. No arquipélago, estima‑se que cerca de 30 milhões de aves migratórias, entre as aproximadamente 185 espécies que visitam a Grécia a cada ano, utilizam as ilhas Jônicas como pontos de descanso e reabastecimento na rota entre África, Ásia e Norte da Europa.
Dados da plataforma eBird, alimentada por observadores e birdwatchers, já indicam chegadas antecipadas na Grécia desde os primeiros dias de janeiro. A Corfu Environmental Society relata que muitas espécies aparecem agora duas a três semanas antes do que era observado em 2010 — um sinal claro de que os calendários naturais estão se deslocando.
No cenário italiano, o fenômeno também foi documentado de forma abrangente: uma investigação publicada na revista científica Wildlife Biology, conduzida pela Università degli Studi di Milano em parceria com a LIPU e outros institutos, reuniu mais de quatro milhões de registros de avifauna em países ao longo das rotas pré‑reprodutivas. O diagnóstico é direto: a migração está mudando de ritmo e milhões de indivíduos podem ficar expostos se os calendários de caça não forem ajustados.
Para dimensionar: a Itália recebe centenas de milhões de aves ao longo das rotas migratórias. Entre as cifras citadas pela pesquisa estão cerca de 10 milhões de andorinhões (Apus apus), 1,6 milhão de upupas (Upupa epops), 38 milhões de andorinhas‑rústicas (Hirundo rustica), 15 milhões de usignolos (Luscinia megarhynchos) e 16 milhões de papa‑moscas‑pretas (Ficedula hypoleuca).
O perigo é claro: quando a passagem das aves coincide com a chamada “temporada de caça”, milhões podem acabar no alvo. Especialistas e organizações conservacionistas — entre elas grupos de pesquisa italianos e europeus — alertam para a necessidade de revisar as épocas e limites de caça, bem como para reforçar a vigilância em pontos críticos, como as ilhas e as zonas húmidas costeiras, que funcionam como pontes naturais entre continentes.
Além do risco direto da caça, a antecipação das migrações espelha deslocamentos na disponibilidade de recursos (alimento e locais de parada), o que pode afetar a reprodução e a sobrevivência das espécies. Esta é uma questão de conservação, mas também de ética ambiental: manter corredores seguros para a passagem das aves é semear resiliência ecológica.
Como curadora de progresso da La Via Italia, vejo aqui um chamado para agir com clareza e generosidade: ajustar políticas públicas, integrar dados científicos aos calendários de manejo da vida selvagem e fortalecer práticas comunitárias de observação são medidas que iluminam novos caminhos para proteger esses viajantes do céu. A mudança é real; a resposta, possível — resta-nos transformar conhecimento em ação.
O que pedem os especialistas:
- Revisão imediata dos calendários de caça nas rotas migratórias para reduzir sobreposição entre migração e época de caça.
- Ampliação da monitorização através de redes de birdwatchers e plataformas como eBird para detectar deslocamentos temporais em tempo real.
- Proteção reforçada de zonas húmidas e pontos de parada críticos na Itália e na Grécia.
- Campanhas educativas que sensibilizem caçadores e comunidades locais para a importância de ajustar práticas ao novo cenário climático.
O céu que atravessam estes milhões de aves é um mapa vivo das transformações do planeta. Ao compreender e proteger essas rotas, cultivamos não apenas a biodiversidade, mas também o legado que queremos deixar — um horizonte límpido para as próximas gerações de migrantes e humanos.
Crédito da imagem: Lipu / Sebastiani
Fonte: La Via Italia, com base em estudos da Università degli Studi di Milano, LIPU, dados de eBird e relatórios de organizações ambientais locais.






















