Por Aurora Bellini — A cada 17 de janeiro a memória de Sant’Antonio Abate ilumina tradições rurais e religiosas que celebram o vínculo entre humanos e animais. Em muitos lugares, a data é ocasião de bênçãos para cães, gatos e animais de quinta; em San Bartolomé de Pinares, pequena povoação de cerca de 700 habitantes em Castilla y León, a celebração ganha contornos mais intensos e controversos nas conhecidas Las Luminarias.
O rito consiste em acender grandes fogueiras ao longo das estradas e campos, sobre as quais cavaleiros conduzem os seus animais — sobretudo cavalos, por vezes também asnos — fazendo-os passar rapidamente por entre as chamas. Para os defensores da tradição, trata‑se de uma prática ancestral, de origem pagã, pensada para a purificação dos animais e para assinalar simbolicamente o retorno progressivo da luz após o longo período escuro do inverno.
Mas o brilho dos fogos projeta também sombras: organizações de proteção animal e parte da opinião pública questionam se é legítimo submeter seres sensíveis a estímulos tão agressivos em nome de um rito. A discussão é concreta. Enquanto moradores e participantes afirmam que os animais não se ferem — lembrando que a passagem é rápida e controlada —, especialistas em comportamento animal lembram que o stress provocado por barulho, calor e a sensação de perigo pode ter efeitos imediatos e prolongados sobre a saúde física e psíquica dos animais.
San Bartolomé de Pinares mantém a tradição com fervor: além das fogueiras, há bênçãos oferecidas por padres locais e cavaleiros que adornam selins e arreios. Para a comunidade, a cerimônia tece laços sociais e promove um sentimento de continuidade cultural, uma chama que ilumina raízes e identidades. Para críticos, porém, trata‑se de uma prática que precisa ser revista à luz do conhecimento contemporâneo sobre bem‑estar animal.
Nos últimos anos surgiram apelos por alternativas que preservem a riqueza cultural do evento sem expor os animais a risco desnecessário — por exemplo, a substituição dos fogos por efeitos luminosos seguros, ou a realização de rituais simbólicos em que os animais não sejam compelidos a atravessar chamas. Essa busca por um meio‑termo é exatamente o tipo de inovação ética que gostamos de iluminar: como reinventar ritos para que continuem a conectar gerações, sem deixar de cultivar respeito e cuidado.
Debater tradição e proteção é desafiar o passado com um olhar para o futuro. A La Via Italia entende essas celebrações como oportunidades para semear práticas que reconciliem memória e bem‑estar — um horizonte límpido onde cultura e compaixão cresçam lado a lado. Que o fogo das Luminárias sirva, então, menos para ferir e mais para revelar caminhos de renovação.
O que está em jogo:
- Preservação de costumes com sentido comunitário.
- Responsabilidade ética diante do sofrimento animal.
- Possíveis alternativas que mantenham o simbolismo sem riscos físicos.
Em suma, a festa de Sant’Antonio Abate é luz que convoca — cabe às comunidades escolherem se essa luz aquece com cuidado ou queima sem cautela.






















