Em um movimento que mistura simbolismo histórico e cálculo político, María Corina Machado entregou pessoalmente ao presidente Donald Trump o certificado do Prêmio Nobel da Paz que concorrera e venceu em outubro. O encontro aconteceu na Casa Branca e, além da solenidade, teve contornos de um lance estratégico no imenso tabuleiro que é a política venezuelana.
Machado, líder da oposição venezuelana, reiterou aos jornalistas a metáfora histórica que acompanhou o gesto: “Duzentos anos atrás o general Lafayette deu a Simón Bolívar uma medalha com a face de George Washington. Bolívar guardou-a pelo resto da vida”, disse. “Duzentos anos depois, o povo de Bolívar devolve ao herdeiro de Washington uma medalha, neste caso a medalha do Prêmio Nobel da Paz, como reconhecimento pelo seu extraordinário empenho a favor de nossa liberdade”.
O gesto é estritamente simbólico — o Comitê de Oslo já esclareceu que o prêmio não é transferível —, contudo, a leitura política é explícita: Machado busca consolidar apoio externo que a ajude a pavimentar uma entrada no governo de Caracas, depois de anos de oposição a Nicolás Maduro e da recente vitória eleitoral do seu candidato, Edmundo González Urrutia.
Ao término do encontro e após visita a Capitol Hill, Machado cercada por apoiadores, afirmou que “podemos contar com Trump” e qualificou o encontro como tendo decorrido “muito bem”. Do lado americano, o chefe da Casa Branca fez expressivo agradecimento em sua conta na Truth: disse ter sido uma honra receber Machado e afirmou que o presente foi entregue “em reconhecimento ao trabalho que eu realizei”.
Contudo, o tabuleiro regional permanece complexo. Na equação surge a figura de Delcy Rodríguez, presidente interina que nas últimas semanas ganhou fôlego junto à administração americana por conta de um acordo sobre petróleo e pela libertação de centenas de prisioneiros políticos. “Ela satisfez todas as nossas solicitações”, disse a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, enquanto o próprio Trump relatou ter mantido uma longa conversa por telefone com Rodríguez e que pretende recebê-la em Washington — além de declarar a intenção de visitar a Venezuela o quanto antes.
Importa notar a ambivalência do apoio externo: há sinais de preferência, mas também advertências. Há dez dias, Trump havia esfriado as ambições de Machado, afirmando que ela carecia do “respeito” necessário para liderar uma transição e sugerindo que se afastasse para facilitar o processo. Rodríguez, por sua vez, respondeu em tom firme que aceita, se preciso, ir a Washington “com a bandeira tricolor na mão” para travar uma “batalha diplomática”, acrescentando: “Se eu for a Washington como presidente interino, irei de cabeça erguida, caminhando e não rastejando”.
Tratam-se de movimentos que redesenham fronteiras invisíveis de influência. O ato de Machado — uma doação simbólica do Nobel — é menos um final do que um lance tático: visa transformar capital simbólico em alavanca política num cenário onde alianças externas podem determinar o rumo do poder em Caracas. A tectônica de poder na Venezuela continua, portanto, volátil; o destino do país seguirá sendo decidido tanto por negociações discretas nos corredores de poder quanto por gestos públicos que reverberam nas praças e nos salões do mundo.
Fonte: Il Fatto Quotidiano






















