Por Chiara Lombardi — Em uma noite em que a televisão atuou como um espelho do nosso tempo, a transmissão de Aldo Cazzullo em La7 tornou-se um fenômeno de audiência. A edição dedicada ao Vajont do programa Una giornata particolare, exibida na prime time de quarta-feira, 14 de janeiro, foi a mais vista de sempre da atração: mais de 1.360.000 espectadores e uma share de 7,7%, com picos que chegaram a quase 11%.
Os números, além de expressivos, trazem um dado culturalmente relevante: a atração alcançou um público mais jovem de forma marcante. Entre 20 e 24 anos, a audiência cresceu 92%, sinal de que a memória coletiva do país — esse roteiro oculto que molda identidades — está sendo resgatada por novas gerações. A permanência média na transmissão também aumentou, ultrapassando 33% (+10,8%), o que indica envolvimento e atenção prolongados por parte do público.
O episódio abordou um capítulo que permanece como um dos mais trágicos da história italiana: o desastre do Vajont. Quase 2.000 vidas foram ceifadas; entre elas, aproximadamente 500 crianças e 31 vidas que ainda não haviam nascido, levadas em seus úteros pelas mães. Não foram apenas vidas interrompidas: foi uma geração que teve seus projetos, sonhos e um futuro coletivo violentamente apagados. A narrativa do programa funcionou como um reframe da realidade — não só para recordar, mas para provocar uma reflexão profunda sobre as escolhas que moldam desenvolvimento e memória nacional.
Numa leitura cultural, a repercussão do episódio confirma que o entretenimento de qualidade pode ser uma lente crítica sobre o passado: a televisão, aqui, opera como um veículo de recuperação da história e de convocação do debate público. A repercussão entre jovens mostra que o interesse pela história e pela responsabilidade cívica está longe de ser um tema exclusivo das gerações anteriores.
O próximo episódio de Una giornata particolare, agendado para quarta-feira, 21 de janeiro, promete outra imersão nos bastidores da história italiana: serão abordados dois grandes escândalos do período da Itália unificada — a Banca Romana e a operação Tangentopoli. A produção anuncia entrevistas inéditas com figuras centrais como Antonio Di Pietro e Stefania Craxi, além de uma visita ao cofre do Banca d’Italia para mostrar os lingotes de ouro que estiveram no epicentro de disputas e controvérsias.
Em sua função social, o programa de Cazzullo demonstrou como a televisão ainda pode cumprir o papel de decifrar o roteiro oculto da sociedade, trazendo à cena não apenas imagens, mas conexões entre memória, identidade e as forças que empurraram a Itália em direções inesperadas. Há algo de cinematográfico nessa reconstrução: cenas que nos convocam a olhar, com olhos críticos, o passado para entender o presente.





















