Foi um estrondo nas plataformas: enormes cartazes que reproduziam cortes de carne pendurados em uma câmara fria, acompanhados por slogans enigmáticos como «È successo un macello» e «Nessuno nasce vegano». A imagem chocante, vista por passageiros nas estações de metrô e pontos de ônibus de Milão e Roma, parecia um enigma urbano — e, nos primeiros momentos, muitos se perguntaram se se tratava de uma ação de grupos ativistas ou de uma provocação da própria indústria da carne.
Hoje a verdade foi revelada: a iniciativa não nasceu de associações animalistas nem de campanhas de choque de terceiros, mas de uma empresa que decidiu transformar seu próprio percurso. Trata-se do grupo Tonazzo, que em setembro de 2024 anunciou a decisão de abandonar a produção tradicional de carne para concentrar-se apenas em proteínas vegetais. A marca que hoje identifica seus produtos à base de plantas é a Kioene.
A ação, claramente pensada para chamar a atenção durante o Veganuary — a mobilização internacional de janeiro que convida as pessoas a consumir apenas alimentos de origem vegetal por um mês — foi uma aposta de guerrilla marketing com objetivo duplo: provocar o debate e contar uma história de mudança. Nos fóruns veganos e entre os grupos de curiosos que se aglomeravam diante dos cartazes, surgiram suposições sobre a autoria e a intenção da campanha. Alguns imaginaram uma intervenção de ativistas; outros suspeitaram de uma tentativa do setor de normalizar imagens cruas de abate.
Na realidade, a campanha foi um gesto simbólico: uma empresa que foi onívora e optou por evoluir. Com os cartazes, a Tonazzo quis recordar publicamente essa transição e sublinhar que a mudança é possível — para empresas e consumidores. A narrativa foi construída na perspectiva da responsabilidade ambiental e do bem-estar alimentar: os sistemas de criação intensiva são responsáveis por impacto significativo sobre o território, poluição do solo e da atmosfera ao longo de cadeias produtivas intensivas. Mostrar o antes e o depois, mesmo em imagens provocadoras, foi a forma escolhida para iluminar novos caminhos de produção.
Do ponto de vista comunicacional, a ação funcionou: gerou curiosidade, cobertura e conversas — exatamente o que se espera de uma iniciativa de marketing que busca semear inovação no imaginário público. Para além da polémica inicial, a escolha da empresa abre espaço para um debate mais amplo sobre consumo, cadeia produtiva e alternativas sustenáveis que respeitem o ambiente e a saúde coletiva.
Na voz da La Via Italia, essa campanha é um exemplo de como decisões empresariais podem tecer laços entre evolução econômica e responsabilidade ecológica. Não se trata de uma retórica ingênua, mas de um gesto concreto: abandonar a carne para investir em soluções alimentares baseadas em plantas é uma forma de cultivar valores que projetam um horizonte mais límpido para as próximas gerações.






















