O governo da Itália confirmou que anunciará oficialmente, em fevereiro, as regras de um novo visto de trabalho destinado a descendentes de italianos. A informação foi divulgada pelo vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, durante a Conferência Nacional de Exportação e Internacionalização das Empresas, realizada em Milão, e posteriormente reforçada em entrevistas a veículos internacionais.
O anúncio ocorre em um momento sensível da política migratória italiana. Mudanças recentes e controversas nas regras de reconhecimento da cidadania italiana por descendência o chamado ius sanguinis têm provocado insegurança jurídica e frustração entre milhões de descendentes espalhados pelo mundo, especialmente no Brasil, país que concentra uma das maiores comunidades de origem italiana fora da Europa.
Um visto, não uma cidadania
De acordo com as informações já antecipadas pelo governo, o novo instrumento não se trata de cidadania, mas de um visto de trabalho. Ele permitirá que descendentes de italianos residam legalmente na Itália para exercer atividade profissional, mesmo sem o reconhecimento prévio da cidadania italiana.
Na prática, o visto funcionará como um título migratório, oferecendo autorização de residência vinculada ao trabalho. O diferencial está no público-alvo: pessoas que conseguem demonstrar vínculo histórico e familiar com a Itália, ainda que não tenham ou não possam obter o reconhecimento formal da cidadania por descendência.
A proposta busca criar uma alternativa legal de entrada e permanência, em um contexto no qual o acesso à cidadania italiana vem sendo progressivamente restringido por decisões administrativas e judiciais.
Contexto econômico e demográfico
A iniciativa também deve ser analisada à luz dos desafios estruturais enfrentados pela Itália. O país convive com envelhecimento acelerado da população, baixa taxa de natalidade e carência de mão de obra em diversos setores, especialmente fora dos grandes centros urbanos.
Ao priorizar descendentes de italianos, o governo aposta em um perfil de migrante que, em tese, já possui algum grau de proximidade cultural, linguística ou identitária com o país. Trata-se de uma tentativa de equilibrar a necessidade econômica de imigração com um discurso político que valoriza laços históricos e nacionais um tema sensível no debate interno italiano.
Expectativa e apreensão entre descendentes
Entre descendentes de italianos no exterior, o anúncio foi recebido com sentimentos ambíguos. De um lado, há expectativa de que o visto represente uma porta de entrada concreta para quem deseja viver e trabalhar legalmente na Itália. De outro, cresce o receio de que a medida funcione, na prática, como uma compensação política diante do endurecimento das regras de cidadania.
Especialistas e associações ligadas à diáspora italiana alertam que o visto não substitui os direitos associados à cidadania, como estabilidade de residência, direitos políticos e livre circulação plena na União Europeia. Ainda assim, reconhecem que pode representar uma alternativa relevante para milhares de pessoas hoje excluídas dos caminhos tradicionais de regularização.
O que ainda falta esclarecer
Até o momento, pontos centrais permanecem indefinidos. Não se sabe, por exemplo, quais critérios comprobatórios de descendência serão exigidos, se haverá limites anuais de concessão, quais setores do mercado de trabalho serão contemplados ou se o visto poderá ser convertido, no futuro, em residência de longa duração ou em cidadania.
Essas definições, prometidas para fevereiro, serão determinantes para avaliar o real alcance da medida e seu impacto tanto na política migratória italiana quanto na vida prática dos descendentes interessados.
Um debate longe do fim
O anúncio do novo visto evidencia uma tentativa do governo italiano de reorganizar sua relação com a diáspora, em um cenário de pressões econômicas internas e questionamentos jurídicos externos. Ao mesmo tempo em que sinaliza abertura ao trabalho e à imigração seletiva, o Estado italiano reforça limites cada vez mais claros ao reconhecimento automático da cidadania por sangue.
Entre promessas, expectativas e incertezas, uma coisa parece clara: o debate sobre quem tem direito à Itália e em que condições está longe de se encerrar.






















